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Mensagens

Há dias

de esperança. A Esperança é um raio de sol rompendo o nevoeiro. É um horizonte azul, com a promessa de que haverá sempre o infinito e um pouco mais. Há dias em que acreditamos que o melhor está [sempre] para vir, ouve-se uma voz alegre que nos conta segredos e as pessoas sorriem. Basta um sopro destes dias para que o mundo se transforme. Sacudimos a alma amarrotada, arejamos pensamentos e pintamos de vermelho vivo o coração. Saímos para a rua com a certeza de ir conquistar o impossível. Nesses dias, a luz tem mais calor, os pássaros rodopiam e a cidade está engalanada de cor, mesmo que chova. A Esperança traz consigo a vontade de acreditar. A Esperança é a roda do moinho que move a nossa vida acomodada. Com Esperança, fazemos o caminho. (post SAPO Agosto 2022)

Escrevo sempre

de um fôlego, como se a avalanche de palavras não pudesse ser contida. Sou capaz de matutar numa frase enquanto faço a vida normal, compras, carro, trabalho, café, casa. Ela ali anda comigo, espreita por entre um pensamento e outro, insiste, quer sair, precisa de ver a luz do dia. Quando sinto que me foge e a perco tenho que parar, deixar o que estava a fazer, sentar-me e escrever. Depois de a ver no fundo branco do ecrã, de a encadear com outra frase e mais outra e ainda outra e a história desabrochar e a mensagem por ali ficar, suspiro. Já posso voltar à vida normal, compras, carro, trabalho, café, casa. (post SAPO Março/2029)

Para escrever

como se a alma nos saísse pelos dedos é preciso rasgar o corpo por dentro e nem sempre somos capazes. Não é só o coração que tem que se abrir, é o peito todo, é uma maré que sobe, visceral, e quando sai traz-nos inteiros, de um fôlego, sem mais nada para dar. Há muito que não o faço, talvez porque para o conseguir me falte o sol, o mar, um sopro de dourado, um cante ancestral. Talvez porque não haja quem mo mereça. Que (me) escreva dessa forma tão plena, quem saiba cuidar dessas palavras, tão gigantes e frágeis. Enquanto não decido, adio. (post SAPO Janeiro 20, 2019)

De repente

chega o medo, o medo é um pássaro negro que poisa no peito. É um caminho sem fuga, uma dor que aperta e agonia, um pulmão sem ar. A cor do medo é cinza, um nevoeiro frio que desce e envolve o coração. O medo tem muitas caras e a pior é a que nasce pelos que queremos proteger. Este medo são correntes que nos tolhem o amor. O medo por um filho faz de nós animal encurralado pelo futuro. Precisava de ter superpoderes e não tenho. (post SAPO 8/2018)

Na despedida

(post no SAPO 5/2017)

Atravessamos sempre

sozinhos os piores desertos das nossas vidas. Numa ilusão de comunidade envolvente, estamos sós com os nossos medos, a incerteza de conseguirmos chegar, os demónios que nos assombram e são só nossos porque ninguém os vê ou toca. Rodeados de amigos e familia, só nós sabemos o que a eles não podemos fazer chegar. Disfarçar, não preocupar. É connosco próprios que contamos para travar as nossas lutas.(post no SAPO 4/2017)

Escrevo

melhor na sombra. Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós. É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e deixar f...

Um dia (mas não o de hoje)

há-de chegar, prometo que sim, talvez quando já ninguém o espere, como uma revelação ou milagre, ao entardecer depois do pó dos caminhos assentar debaixo das chuvas, se calhar quando o sol romper - como sempre - o nevoeiro. Um dia. Um dia vai chegar e será esse que vamos chamar de primeiro e depois desse o seguinte e os outros que hão-de vir. E as respostas que hoje nos faltam vão ser tantas que serão escritos compêndios e publicados ensaios e produzir palestras e teorias de que o Universo gira em torno das pessoas que nascem diferentes, carregando uma luz mais brilhante que as outras. Um dia virá, em que a corrida de memória em memória chega por fim à meta final e a manhã nos vai trazer só o cante dos pássaros e o aroma da esteva. Não será ainda hoje.(mas chegará)

Escrevo

melhor na sombra. Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós.  É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e...
Por vezes, partem-se fios dentro de nós. Elos que quebram, de repente duas pontas soltas, antes unidas. Quando isto se dá, não há cola no mundo que torne a ligar o que quebrou.

De vez em quando

voltas-me, como se um bando de andorinhas em migração para o sul. Quase nunca te espero, entretida que estou em te esquecer, enredada na vida morna de trabalho casa trabalho. Apareces na esquina da tarde, quando o fulgor do céu não me deixa evitar nítidas lembranças, as que tento apagar em esquemas de fuga que costumo praticar para que não me soe a tua voz macia. [passaram-se mesmo estes anos?] Fintas-me o engenho com que te enterrei morto em vida, vaderetro que não me quero lembrar desse sopro de Verão no meu quintal. Apareces quando menos te procuro, nas madrugadas de insónia ou quando me invades olhos e sentidos de surpresa, enquanto disfarço e me engasgo com a bica e finjo que me interessa o preço do dólar ou o tempo para amanhã, a passar naquele momento num rodapé qualquer. Voltas-me a espaços, de estação a estação sem dia marcado mas certo como as horas, sabendo eu que quanto mais me convenço que te arquivei numa pasta qualquer, mais depressa me apanhas na curva, feito l...

...

E passados estes anos, continuo a sonhar contigo. Umas vezes és tu mesmo que me apareces, inteiro, com esse doce olhar de âmbar, todo ele cante e poesia. Noutras, muitas menos, surges habitante de outros rostos, outros corpos, mas sei sempre que és tu, nesta firme certeza de quem conhece bem o caminho de casa. Em todas elas me inundo de paz, como se soubesse que assim será sempre, que ainda que ausente me estás perto, tão próximo, tão certo, tão meu. Passados tantos anos sei que os dias em que nos tivemos foram os mais completos e verdadeiros de toda uma vida. Sei tudo isto assim, sabendo. Da mesma forma que te reconheci os traços da primeira vez que te vi, como se fizessem parte de um roteiro que trazia marcado no peito, e soube que, um dia, a nossa estrada seria a mesma. Havia sinais por todo o lado, para quem os quisesse ver, a integridade vertical dos justos, o orgulho comum pelas causas, a mesma convicção, idêntico frémito sempre que, de punho erguido, entoávamos a mesm...