morreu-me há catorze anos e mais dez dias. Precisamente. Não vou ao cemitério há uns dois anos. Não sei bem como lidar com aquela foto dele na pedra, a inscrição que escrevi num papel nessa noite, na sala de espera do hospital, saida directamente do choque, do horror da incredulidade de dentro da alma "Viverás para sempre na memória dos que te amam". Não sei o que fazer naquela casa de gente que não é gente, talvez apenas pó no meio da terra ou nem isso, fotos antigas, flores secas. Pessoas que foram felizes, amaram, odiaram, que sorriram muito, que estiveram por aqui, ao nosso lado, onde estamos nós agora, até ver, até um dia. Até deixarmos nós de estar também. O meu pai já morreu há tanto tempo. Passaram anos e estórias, cresceram-me os filhos, apaixonei-me e desisti, tornei a acreditar e desistir, estive no topo, vim até ao fundo, tornarei a levantar-me. Um destes dias. Catorze anos e dez dias. E, não sabendo bem porquê, nunca o chorei como fiz no dia de hoje.