sexta-feira, setembro 5

0 *
RTP1, dia 5 de setembro de 2014, 18.00horas.

Ainda procuro pelos restantes canais, na esperança de algum noticiar a abertura da Festa. Népia.
Na 1, num suposto programa de Portugal "em directo", até agora já vi noticiada uma Feira do livro no Porto, o Verão nos hoteis do Algarve e respecrtiva taxa de ocupação, uma festa de homenagem à Beatriz Costa "numa pequena aldeia do concelho de Mafra" (sic jornalista) (aldeia da Charneca, com 600 habitantes) e um FestivaL F  a iniciar em Faro.
Aguardo serenamente até ao final do Programa para enviar uma queixa formal à ERC sobre a nojenta discriminação do maior acontecimento cultural e politico em Portugal - a  FESTA   do ÁVANTE!

segunda-feira, maio 12

Só porque

0 *
fiquei com vontade de meter nojo a todos quantos fazem gala em que ter um blogue deve ser sinónimo de :


a) ter um cão - Não tenho
b) fazer pelo menos 3 viagens maravilhosas por ano - mal tenho cheta para ir ali a Serpa.
c) consomem sumos verdes e de repente descobriram que o corpo é o seu nirvana particular. - tenho dez quilos a mais que há 5 anos.


E também tenho um blogue, para que saibais!

terça-feira, janeiro 8

Uma pessoa

0 *
conhece outra pessoa. Olha para ela, vê-a passar. A pessoa estava ali e, de repente, passa a estar mais. Uma vez, outra vez, muitas vezes. Uma pessoa pensa que já tinha visto a pessoa, num tempo qualquer, não sabe bem onde nem como ou de que maneira. E com esse pensar, esse Big Bang social, uma pessoa criou, na sua vida, a outra pessoa. A partir daí a pessoa, que existia e estava ali mas que na nossa vida ainda não tinha sido criada, passa a suscitar em nós um qualquer tipo de reacção. Boa ou má, intensa ou assim-assim. Nem sempre, não todos os dias mas, um dia aqui outro dia ali e a pessoa lá está, continua a estar e respira e ri e fala e faz coisas e nós a pensar que sim ou nós a pensar que não. Algures no processo, tropeçamos na pessoa e trocamos palavras. Emissor-receptor, palavras soltas ou pesadas, construtivas ou aparvatadas. Sorrimos ou embirramos e esquecemos ou continuamos, fabricamos uma imagem a partir dos pedaços avulso que nos são dados a conhecer. Quase nunca real, muito do que construimos traduz mais aquilo que gostarímos que a pessoa fosse do que a verdadeira essência que a compõe. Às vezes andamos lá perto, descobrimos mais tarde que afinal acertámos no encaixe de quase todas as peças, uma pincelada aqui, um polimento ali e o quadro que pintámos para nós aparece finalmente, para o bem ou para o mal, em todo o seu esplendor. Noutras (raras) falhamos redondamente e ficamos assim confusos, meio amargos, conscientes à força de que, afinal, também nos podemos enganar tanto. Outras há, ainda, em que não chegamos a ter a oportunidade de comprovar as nossas teorias. Mas a pessoa fica ali na mesma e, teimosos, deciframos-lhe nos gestos e sorrisos, nas atitudes que assume, na defesa das Causas, no afago carinhoso a uma criança, até na coincidência dum post publicado e que, pelo seu significado, estivémos nós a um milímetro de publicar anteriormente, as certezas que não pudémos alcançar de outra forma. E, às vezes, isso basta.

segunda-feira, maio 14

0 *
Eu O D E I O a minha voz gravada....mas em nome da posteridade...;-)

sexta-feira, fevereiro 10

Aqui

0 *
também devia ter sido ensinado às meninas, que ler demasiadas histórias de "fazdeconta", iria ter graves efeitos secundários no futuro....

domingo, fevereiro 5

3 *
E agora, onde vou eu recuperar esta música na integra?....
Já está! informação preciosa do João Pedro em 11 de Março de 2005, no seu Ruinas Circulares: Os Low, "I COULD LIVE IN HOPE" :-)

quarta-feira, novembro 30

Ciclos e gavetas

6 *
Produzo prosa ao sabor das marés, ciclos de lua, de amores e desamores. Inflamo o teclado de paixões ou ódios de estimação, de humor e mau-feitio, antigas ou novas descobertas e admirações embevecidas, crenças e projectos tanto quanto me esqueço, por longas temporadas, que a escrita costuma ser um bálsamo que me apazigua as maleitas. Funciono assim, aqui como na vida, por rompantes de emoção que me levam a paraísos ao virar de uma esquina, revelam mundos encantados descritos por entrelinhas de uma canção ou, tão somente, atiram para o conforto de um sofá embalada pelo som distante da TV. Desiludo-me muitas vezes, já não tantas quanto antes mas ainda mais que aquelas que deveria. Sempre que um projecto morre antes de nascer, quando um dia de sol se transforma em chuva triste ou em todas as raras ocasiões em que alguém mostra ser quem não parecia. Essas são as perdas que mais marcam, logo depois daquelas físicas de verdade, em que chega o fim da matéria será que habita nela a alma? e parte para o desconhecido alguém que muito amámos. Tenho das duas, no meu livro de viagens pela vida. Nenhuma se esquece, adormece ou perde a força. Só se aprende a escondê-las em gavetas para, por momentos, parecer que não estão lá.

quinta-feira, outubro 13

Desenganem-me meus queridinhos, poder de decisão não é o mesmo que capacidade de decisão

2 *
A diferença gritante pequenina, tiny, tiny, tiny little difference é que muitas vezes - todas? quase sempre? algumas vezes? raras? - quem detém o primeiro não possui as capacidades para executar a segunda.*

 *ou de como mais faz quem quer do que quem pode.
 ** ou ainda de como levar a a água ao nosso moinho, com a diferença de que o que poderia concretizar-se com apenas um simples, claro e objectivo telefonema, requereu uma boa meia dúzia deles mas o resultado final foi o que pretendíamos, não é mesmo Chérizinha?? ;-)


segunda-feira, outubro 3

quinta-feira, setembro 15

0 *
Deixei de contar os dias. O meu calendário agora são as folhas das árvores que começarão um dia destes a cair.

segunda-feira, setembro 12

Navegar é preciso

2 *
Não passamos de intrépidos exploradores à descoberta de novos mundos, garimpeiros na demanda do filão mais precioso. Levantamos ferros e largamos caravelas por esses mares fora, na esperança de ir sempre mais além, muito além do Bojador.
Quando, enfim, um recorte de Terra firme contra o céu nos parece o lugar de atracar, trôpegos de tanto navegar sem chão por debaixo dos pés, fundeamos e saímos em busca de promessas de solo farto e apressamo-nos a desfraldar bandeiras, erigir monumentos, marcar territórios. Não venha alguém usurpar o que com tanto esforço - dias e dias de marés altas, sede e sal, febres e escorbutos, delírios e visões de sereias que afinal eram dragões - por fim alcançámos. 
A ilha do Paraíso que, vai-se a ver, desfeita a miragem, era só mais uma rocha estéril no meio do oceano.

domingo, setembro 11

O Silêncio

0 *
Deixa as palavras onde estão.
Imóveis, desarmadas.
Não lhes agites os demónios que nelas dormem
ávidos de despertarem.
Não fales do que és, nem descrevas
coisa alguma. Preserva o que em ti
e nos outros é intocável.
Não deixes que as palavras desfigurem.
Que as palavras mutilem.
Que as palavras viciem.
Que as palavras mintam.
Que as palavras sejam peças
de um jogo em que o desfecho

É o xeque-mate.


Fernando Namora, in Nome para uma casa, 1984

terça-feira, setembro 6

Sair do mundo

7 *
por um bocadinho. Do mundo que nos está mais próximo, daquele que vemos todos os dias. Não é preciso que seja até um destino exótico, horas de avião, malas a rebentar, aeroportos atulhados, correrias e arrelias, basta uma casa a que chamamos lar, paz de espírito, uma cama e lençóis lavados. Basta desligar telefones, esquecer rotinas, comer só se apetecer, dormir o que se puder. Basta a nossa companhia e as conversas que com os nosso botões vamos mantendo. Basta viver e esquecer.

terça-feira, agosto 30

É plausível,

0 *
no final de contas, se calhar, cada um de nós tem mesmo é aquilo que merece, cá agora grandes teorias e análises pra quê..bah.

sexta-feira, agosto 26

Da auto-estima

3 *

Um dia um gesto súbito. Espontâneo e inesperado e que nos consegue tocar de forma particular.
Um singelo gesto que nos rebenta com os diques todos e os muros de betão que em redor tentamos construir, liberta a enxurrada contida para que a sua força arraste o que encontra pela frente e lave até ao último grão a poeira dos tempos, que nos cobre.

Como daquela vez em que num email, alguém me tinha deixado esta singela e espontânea mensagem:



"...E não pares de escrever. Tens um talento nato para exprimir emoções que são difíceis de ser descritas. Muda de blog, muda de nome, mas não percas isso! Sim?!"



Uma mensagem a partir da qual tomei consciência de que afinal não quero é mudar nada, que gosto de ser assim mesmo, um ser imperfeito com as minhas fragilidades e forças, as contradições e convicções. É com este carácter que atravesso a vida. Isto é o que sou e não vou fingir que sou outra coisa qualquer. Não quero mudar. Nao irei mudar.
Obrigado!

quarta-feira, agosto 10

2 *

Despedi-me das pedras, uma por uma.
Passei devagar a palma da minha mão pela sua pele gasta, senti-lhes o calor, encostei o peito à sua altivez secular e podia jurar que lhes ouvi, batendo, um coração. Era um som suave, feito de risos e histórias, do tilintar dos copos, tinha vozes profundas cantando uma música antiga, um violino e um piano, o bater dos pés no chão e um refrão dolente, dentro das tuas muralhas há uma rosa a quem quero bem. Era o som da amizade e duas mãos dadas, de um brinde ao futuro, da esperança, tinha dentro a memória de um olhar a derreter o peito e um abraço que em tempos foi a minha casa.
Despedi-me, sabendo que ali se fechava a última página da história que ali mesmo começara. Despedi-me devagar. Das pedras e das estrelas, do espaço, dos sons e dos sonhos que um dia, não muito distante, chegaram a ser uma realidade. A minha, a nossa. 
Despedi-me das lembranças felizes, empacotei-as à força em caixas de segredos que talvez volte a abrir daqui a muito tempo, quando as estações já tenham trazido neves e ventos e salpicos de ondas e malmequeres e papoilas, uns atrás dos outros, muitas vezes..
"Somos ambos contadores de histórias. Deitados de costas, olhamos o céu da noite..." foi a voz que se ouviu num dos momentos mais intensos deste espaço, entre amigos, deitada no palco a olhar o céu e o veludo escuro da noite. Numa das mais incríveis experiências que por ali tive o privilégio de viver...quase tão poderosa como a outra, a que acontecera precisamente um ano antes.
Foi assim que, com Europa* e amigos novos par a par com os mais antigos, caipirinhas inesquecíveis e algumas lágrimas se fechou um ciclo. Que venha o seguinte.

* de John Berger

segunda-feira, agosto 1

4 *
É comum ouvir-se dizer de alguém, com um misto de admiração e respeito que, Ah escreve tão "bem"...
Escrever "bem" não tem nada que saber: é pegar no coração com jeitinho, abrir-lhe as portas de par em par para que nele possa entrar o mundo inteiro, estender aos outros um sorriso e as palmas das nossas mãos abertas e deixar que, pelas pontas dos dedos, saiam todos sentimentos que durante esse processo o nosso corpo acolheu. Fácil, fácil.

terça-feira, julho 26

Não dá

4 *
para viver com esqueletos nos armários.
Abre-se a porta e eles ali, desconjuntados, um monte indistinto de tíbias, perónios e costelas, a desarrumação total, ossos secos a chocalhar, uma pessoa tenta de novo fechar a porta, esquecer que eles existem e nada, há sempre uma falange encravada no trinco, as mandíbulas a sorrir numa fileira de dentes alinhados, aqueles olhos vazios a mirar o amanhã que nunca há-de vir, uma clavícula enfiada na manga do nosso melhor casaco, não dá. Não dá.
Esqueletos não se fizeram para viver dentro de armários de pessoa normais e vivas, ossos são para enterrar, sete palmos de terra e ao pó voltarás, admitindo-se, vá lá, que possam ser incinerados, forno crematório com eles e um momento lúdico de cinzas deitadas ao mar, lê-se um poema do Cesariny, uma música suave ouve-se no ar e bora lá de volta para casa. Em alternativa, plantam-se as cinzas num jardim debaixo de uma oliveira e pronto.
Esqueletos guardados dentro dos armários de quem ainda respira empatam a vida, obrigam a doses extra de naftalina para combater o mofo, são uma espécie de bichos de estimação de quem somos obrigados a cuidar e que temos que deixar entregues a alguém quando vamos de férias. Uma chatice, nós e os amigos empatados por aquele monte de ossos usados e sem préstimo que, em tempos, já foram cabide de alguém. Nessa altura sim, que se justificavam, esse suporte que passeava carnes morenas e vibrantes, a casa onde moravam uns olhos limpos, um sorriso claro, um regaço quente. Tempos houve em que o esqueleto foi pilar, uma estrutura inteira e sólida, mantida vertical e firme de acordo com os mais complexos cálculos de engenharia, construção anti-sísmica, o garante de uma vida inteira ainda por vir, uma promessa de dias felizes a chegar. Tempos que foram os seus, desse esqueleto e de mais nenhum, marcados no calendário com dia e hora de chegar, permanecer e depois, em paz, acabar. Nessa altura é deixá-lo ir, sorrir-lhe um obrigado por tudo o que de bom nos permitiu descobrir e aprender, abrir as mãos e ficar a vê-lo desaparecer na penumbra de um entardecer sereno.
Não adianta, nunca,  guardá-lo no armário à espera que outra vez ele venha a ser capaz de disfrutar da luz de um novo dia.

terça-feira, julho 19

A malta percebe

0 *
que começa a precisar de terapia quando do nada, de súbito, um texto lido a meio do pequeno almoço se transforma num novelo na garganta, apertado, intransponível a tudo quanto não seja um miserável fio de ar...


«E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, mas todo o mês de Março nos arrastámos na despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas do céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abóbadas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitectos e até teias de aranha suspensas no tecto, como se vigiassem a passagem do tempo. Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu. Sozinhos, eu e a aranha pendurada na sua teia, contemplámo-nos longamente, como quem se descobre, como quem se recolhe, como quem se esconde. Foi assim que vi desfilar os anos, as paredes escurecendo, um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmos livros que fui lendo, repetidamente. Heathcliff e Catarina Linton destroçados outra vez pela minúcia do tempo.
Como explicar-te como tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso? Ulisses não voltará a Ítaca e Penélope alguma desfará de noite a teia que te teceste.
E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer a flor da tremocilha e das buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais nocturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade. E já nada disto, juro, era teu.
E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu para sempre.»

Miguel Sousa Tavares

quarta-feira, julho 6

Ainda há Pérolas

2 *
na blogosfera...Esta tinha-a nos rascunhos, guardada há tempo, à espera da altura exacta para [re]nascer por aqui. Tomem-na.


Há um poema. Um certo poema. Julgo-o feito a partir de memórias sedimentadas nas mais pequenas gavetas do teu coração. Assim como um guarda-jóias invisível, um estojo antigo, passado de mão em mão, na mesma família, por sucessivas gerações de mulheres.
Há um poema. Um poema algures onde deixaste o pó das brincadeira da infância, os jogos, as cantigas, as lengalengas. Tudo aquilo que poderia sugerir um mundo organizado entre os sonhos e os seus resultados. Um mundo onde a ternura era uma janela a fechar o vento mais frio do Inverno desse tempo.
Há um poema. Procuro-o nos teus gestos hoje mais comedidos e reservados, na tua voz onde se insinua a força das pausas, a grande nuvem cinzenta do tempo de hoje onde a tristeza fez a sua sementeira multiplicada.
Há um poema. Deve haver mesmo esse poema num lugar que só tu sabes. Pode não ser ainda poema, pode não ter ainda forma mas eu pressinto que ele existe, funciona, respira, articula-se entre as palavra e os sentimentos, sobe das águas mais escuras e lodosas para uma superfície onde a limpidez dita a sua regra.
Há um poema. Persigo-o ansioso todos os dias apenas guiado pela intuição e pelo instinto de julgar o teu rosto o rosto desse poema, sua origem e seu destino, sua força e sua razão de ser.
Há um poema. Eu sei. Hei-de escrevê-lo a partir da límpida pontuação do teu olhar. Amanhã. Ou num amanhã futuro. No dia da tua total revelação. No lugar onde, a partir dos teus olhos, seja possível instalar uma harmonia igual às brincadeiras da infância quando o mundo estava organizado entre os sonhos e os seus resultados.
via AspirinaB

É

4 *
Verão e isto não está para os tristes.
O blogue fez um brushing, mudou de visual, está fresquinho, alegre e colorido e aqui a Je não tarda irá fazer o memo, olarilolé.

quarta-feira, junho 22

(...)

4 *
"Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar"...

Miguel Esteves Cardoso, in "O Ultimo Volume"

sexta-feira, junho 17

Eis-me aqui

9 *


Não precisei de ter lido Saramago para ser pertença do Alentejo, de alma inteira, pelo nascimento e o coração. Porque se ele dizia "não sei o que tenho em Beja" eu sei bem que este chão é o meu. Dos antepassados alentejanos fui herdar, se não a pele trigueira a verticalidade e o carácter só nestas terras temperados, no suor e nas lutas, como aço. Se na lonjura do olhar transporto a cor e a saudade do mar, em compensação ondula-me nos cabelos o doirado dos trigais, numa mistura descendente de qualquer moura encantada, guardiã das nascentes e dos poços, de um tesouro enterrado e de castelos antigos. Não sei viver com a mentira, tal como não pratico o engano. Só vivo e sinto de maneira plena e esgoto até ao limite tanto os sofrimentos e as dores quanto os sorrisos e amores. Não conheço meios-termos nem águas mornas. Aqui me tens cheia de erros e defeitos, intensa demais, tantas vezes inconveniente mas honesta, humilde, sem máscaras.
Amo a terra e as papoilas, os troncos de árvores centenárias, conheço a conversa dos grilos nas noites quentes do Verão, sei de cor as cores do céu naquele exacto minuto em que o Sol se funde com a linha mais distante que o olhar alcança. Sou companheira habitual dos solstícios e de luares grávidos que me guardam todas as esperanças e os desejos secretos que lhes confio. Não sei esquecer a traição, ainda que a possa perdoar, porque me corre nas veias, vermelho e espesso, o orgulho altivo dos pastores. E, como eles, vivo a solidão e os silêncios com a paz no olhar e a determinação no espírito. E também canto o amor e as lutas em refrões antigos, nos coros de vozes profundas e dolentes que acordam ecos nas casas, nos campos, nas ruas e muralhas.
A grandeza da paisagem é a casa que me acolhe para amar, crescer, me replicar, duplicar ou triplicar e um dia enterrar que à Terra estou devendo e só lhe pago em morrendo.
Não vergo.
E se esse dia chegar antes serei capaz de quebrar e acabar, em extremos de um sentir que me nasce teimoso como a esteva mesmo que nada faça para o cuidar.
E se atrás dizia que nem todas as lutas merecem ser travadas, hoje antes digo que, todas o merecendo,  só algumas valem o esforço. E essas são as que reclamam batalhas justas de jogo limpo que é a única forma que eu conheço de viver. Tão limpo que pode só passar por deixar de lá estar, em retirada escolhida ainda que não desejada. Tudo ou nada, é só assim que sei caminhar. Mas, se não ganho também nada perco porque tudo quanto conquistei já ninguém será capaz de me tirar. Saio de cena, não faço vénia, cai o pano.
Eis-me aqui, do lado de trás e por aqui me fico.
Sem palmas não haverá novo encore.

sexta-feira, junho 10

Não

0 *
não, acho que estás te fazendo de tonta
te dei meus olhos pra tomares conta
agora conta como hei de partir.

De

0 *
quando a vida que queríamos para nós nos passa em show frente aos olhos, literalmente em directo, ao vivo e a cores.

sexta-feira, abril 29

Qual a coisa mais importante

2 *
que queres que saibam de ti?
Qual a coisa mais importante que queres que a pessoa mais importante para ti saiba de ti?

A mesma coisa em ambos os casos?
Coisas diferentes consoante o primeiro ou o segundo?

Só me importa que saibas que me fazes feliz.

domingo, abril 17

Fogo fátuo

9 *
Vieste como um fogo de Verão, daqueles que tudo consome, que não conhece travão. Foste um incêndio que segue o seu caminho por mais esforços que sejam feitos para o conter, que só se extingue por si, de livre vontade, sem hora marcada. Vieste e eu não te disse que não, como se um campo de girassol desde sempre à espera desse teu calor. Vieste sem avisar, da mesma forma como decidiste amainar, talvez por força do vento que de repente se foi ou de alguma chuva extemporânea que matou as últimas fagulhas.
E, no rescaldo, o que resta são pedaços fumegantes de memórias, um monte indistinto de dias vividos ao extremo, escombros de semanas que se assemelharam a anos e que, talvez por isso, pouco deixaram por descobrir, depressa cansaram. Cedo demais.

 
Hoje, talvez tenhas partido ao ataque noutras frentes e aqui, nesta terra marcada em que os reacendimentos escasseiam, é hora de começar a reconstrução.

terça-feira, março 29

Chegas-me

3 *
sem que eu saiba bem como, um tímido raio de sol depois da tempestade. Não que eu antes não soubesse que estavas lá, que o sabia, tanto tu como o sol e entre nós uma cortina de nuvens, uns dias espessa, noutros tão fina que quase podia estender a minha mão e tocar. Em ti.
Estavas lá e eu sabendo há muito, que o sabia, não podia.

E um dia, de repente claro e brilhante, um céu sem nuvens, eis que me chegas. Único e tão certo como se antes desse céu nada houvesse, como se apenas a Primavera fosse estação e as horas já não precisassem de mudança. Não sei se ficas, se o tempo estará a favor desse vento fresco que me sopras na curva do pescoço, não sei se o meu regaço se fará casa, talvez nunca venha a correr o rio nestas minhas mãos que te estendo abertas.
Não sei. Mas não importa.
Chegas e contigo trazes andorinhas, o cheiro dos campos e a luz da cal, um traje antigo e a voz dos deuses.
Não preciso de mais nada para ser feliz.

terça-feira, março 22

Reality's clock is tickling your dreams*

2 *
Comprei uma máquina para fotografar a Lua.
Não chegou a tempo.
Assim anda a minha vida, fora de tempo, desfasada das vontades, desencontrada dos sonhos. Dispersa por um calendário que insistem em impôr-me mas que não é o meu.
Ando ao contrário dos ponteiros, eu. Invento viagens e travessias por mundos imaginários, no avesso da realidade. Só sou feliz num outro lado do espelho, inverso ao de quem me rodeia e assim acabo sózinha, num tabuleiro de xadrez sem Rei e onde nunca existe Xeque à Rainha. E perco-me em tentativas de entrar no Jardim mágico, focada na busca da solução milagrosa, aquela que me faça encolher para caber na porta sem precisar de ser maior para chegar à chave dourada...



* Lewis Carroll

terça-feira, março 15

Pincelar

2 *
a fachada, um jeitinho no exterior, uma caiadela de branco alvo bordada pela barra azul ou amarelo-ocre. Plantar umas malvas cor-de-rosa nos canteiros, talvez uma buganvília que suba pela ombreira, num abraço protector às portadas.
Manter a aparência de solidez, a todo o custo, não dar tréguas ao salitre, não deixar desabar o reboco. Abrir as janelas de par em par. Um sorriso aberto para quem vier por bem.
Segurar a trave mestra lá dentro, lá por dentro, a poder de calços, reforçar os pilares, cuidar que os [muitos, tantos, mas quando é que eles acabam?] estremeções na estrutura não ameacem a segurança do edifício.
O que é preciso é que se aguente de pé, que não desmorone, que fique sempre de pé.


Foto: Mar algures numa rua de Lisboa...

quarta-feira, março 9

E hoje

2 *
é dia de Poesia, Igualdade e Canções, de um copo com amigos, de assinalar a Luta e a convicção de dias melhores que hão-de vir por aí.
Hoje é dia de viver como melhor sabemos: com verticalidade, solidariedade, amizade e combatividade.

quinta-feira, março 3

E ontem

6 *
a Ana Ademar disse este poema de uma forma magistral, doída, com palavras doces, sentidas e que me fez senti-lo de forma igual e desprender lágrimas teimosas.
Falta, de Sarah Kane e os itálicos são o meu muito pessoal poema, só meu...

"E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos, ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa de televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo do teu…
E sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasado e ficar surpreendida quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar toda negra e pedir desculpa quando estou errada e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustada quando estás zangado e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssimo e abraçar-te quando estás ansioso e amparar-te quando estás magoado e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar fria quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou segura contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesta porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrada a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti..."