sento-me e escrevo. Afasto para trás das costas, para longe bem longe, o peso que me pesa e carrega nos ombros, o peito, os olhos, sempre se me notaram as mágoas nos olhos, desde sempre, e escrevo. Lavo-me da maledicência, das altercações, da ignomínia, da revolta e da injustiça, como quem passa água fresca e sabão pelo corpo todo, escrevendo. Aqui chego e encontro este porto onde me acolho, cansada, magoada, após ter atravessado poderosa borrasca. E ter sobrevivido. Acolho-me aqui e descanso. Regenero-me, mais uma vez, tantas vezes. Escrevendo. Sento-me aqui e escrevo para não mais morder os lábios, a lingua, a vontade inteira, num esforço titânico para engolir e calar, ponderar, reflectir e calcular e empurrar para dentro aquilo que devia gritar, anunciar a néon, com a força toda da razão que sei que me assiste. Sabemos. Eu e, felizmente, muitos outros. Escrevo aqui, porque é aqui que desato a mordaça que me imponho, que sou obrigada a impôr-me, que me rasga a carne e sufoca e oprim...