para viver com esqueletos nos armários. Abre-se a porta e eles ali, desconjuntados, um monte indistinto de tíbias, perónios e costelas, a desarrumação total, ossos secos a chocalhar, uma pessoa tenta de novo fechar a porta, esquecer que eles existem e nada, há sempre uma falange encravada no trinco, as mandíbulas a sorrir numa fileira de dentes alinhados, aqueles olhos vazios a mirar o amanhã que nunca há-de vir, uma clavícula enfiada na manga do nosso melhor casaco, não dá. Não dá. Esqueletos não se fizeram para viver dentro de armários de pessoa normais e vivas, ossos são para enterrar, sete palmos de terra e ao pó voltarás, admitindo-se, vá lá, que possam ser incinerados, forno crematório com eles e um momento lúdico de cinzas deitadas ao mar, lê-se um poema do Cesariny, uma música suave ouve-se no ar e bora lá de volta para casa. Em alternativa, plantam-se as cinzas num jardim debaixo de uma oliveira e pronto. Esqueletos guardados dentro dos armários de quem ainda respira empa...