devagar, como quem folheia um livro ou desdobra, folha a folha de celofane colorido, com cautela, um presente minuciosamente embrulhado. Por vezes apetece rasgar tudo de repente, expôr ao nosso olhar sôfrego o interior crú de quem nos interessa mais que tudo. Abrir fundo o coração de quem, para nós, é aurícula e ventrículo e sangue venoso e arterial, que nos enche o cérebro e o peito de oxigénio e suspiros. Enterrar as mãos, até aos cotovelos, nesse lago morno de sistemas circulatório e respiratório e bombear a nossa paixão directamente nas veias desse que, para nós, é ar e chão e alimento, esse sem o qual definhamos e mirramos e perdemos o Norte e mais valia que deixássemos de existir. Mas não. Continuamos a decifrar, com cuidado, aquilo que mais queremos e tememos conhecer. Procuramos sentidos e entrelinhas, perseguimos finais felizes, a moral da estória para dela retirar lições, aquelas que nos mudam e aproximam ou ensinam, da próxima vez, a não cair no abismo da interpretação e...