voltas-me, como se um bando de andorinhas em migração
para o sul. Quase nunca te espero, entretida que estou em te esquecer,
enredada na vida morna de trabalho casa trabalho. Apareces na esquina da
tarde, quando o fulgor do céu não me deixa evitar nítidas lembranças, as que tento apagar em esquemas de fuga que
costumo praticar para que não me soe a tua voz macia. [passaram-se mesmo estes anos?] Fintas-me o
engenho com que te enterrei morto em vida, vaderetro que não me quero lembrar desse sopro de Verão no meu quintal. Apareces quando menos te procuro, nas madrugadas de insónia ou
quando me invades olhos e sentidos de surpresa, enquanto disfarço e me engasgo com a bica e finjo
que me interessa o preço do dólar ou o tempo para amanhã, a passar naquele momento num rodapé qualquer. Voltas-me a espaços, de estação a estação sem dia marcado mas certo como as horas, sabendo eu que quanto mais me convenço que te arquivei numa pasta qualquer, mais depressa me apanhas na curva, feito lembrete de calendário a apitar. Não sei se carregue no delete se te empurre contra a parede enquanto faço um reset do que hoje somos e volte ao estado original, cheio de urgências e espaço por preencher, sem mácula, sem mágoa, uma folha em branco onde traçamos a cores vivas o destino que nos estava reservado.
melhor na sombra. Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós. É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e...
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