melhor na sombra.
Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós.
É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e deixar fluir o que precisamos de dizer e que alguém ouça de verdade. Antes, vínhamos para aqui e desabávamos quando era preciso. Dizíamos todas a palavras proibidas, apagávamos o sorriso, podiamos mostrar o medo e a incerteza, confessar que não sabíamos o caminho, pedir a alguém que nos dissesse como se faz para sobreviver. E havia sempre alguém que sabia. Alguém que passava pelo mesmo, que já tinha atravessado o deserto e encontrado o fim do arco-íris. Alguém que se oferecia para nos guiar através do nevoeiro, sabendo que a luz seria sempre possivel de alcançar. Saíamos daqui com a certeza de poder voltar e, de novo, encontrar essa pessoa, pedir para nos amparar a cabeça e deixar descansar. É disso que preciso. Encostar a cabeça, ouvir que tudo tem um final feliz, saber que posso voltar. É de segurança que preciso.
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