o teu olhar por entre os corpos e as sombras da noite.
Guiei-me pelo bater do meu coração, cega a todos os outros rostos que me envolvem, como fantasmas sem alma. Deixei-me levar pela ternura quente que me invade sempre que me apareces e fico sem ar, num sobressalto que não sei disfarçar. Tacteando, procurei o teu sorriso, essa linguagem universal que quer dizer, estou aqui, gosto de ti. Por vezes tão longínquo que mal o vislumbro e penso que sonho, noutras, ali ao alcance da mão, de um carinho suave nos cabelos.
Não te encontrei, numa multidão indistinta que nenhum apelo me traz. Nada se compara ao teu perfil, ainda que ao longe, essa pose altiva de pastor que trazes inscrita no adn. Talvez moldada pela sorte dessa voz profunda, do cante que te corre nas veias, herança da terra e dos trigos que te pintam olhos e pele.
Procurei-te depois de te ter tido. Por um breve sopro, um vulcão em erupção, o movimento das galáxias, o desabrochar de uma flor, tudo em ti foi meu.
E tendo ficado maior, mais sábia nesse encontro, tão intenso quanto o choque de placas tectónicas, nada na minha geografia ficou igual.
(post SAPO Abril 2023)
melhor na sombra. Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós. É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e...

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