como se a alma nos saísse pelos dedos é preciso rasgar o corpo por dentro e nem sempre somos capazes. Não é só o coração que tem que se abrir, é o peito todo, é uma maré que sobe, visceral, e quando sai traz-nos inteiros, de um fôlego, sem mais nada para dar.
Há muito que não o faço, talvez porque para o conseguir me falte o sol, o mar, um sopro de dourado, um cante ancestral. Talvez porque não haja quem mo mereça. Que (me) escreva dessa forma tão plena, quem saiba cuidar dessas palavras, tão gigantes e frágeis. Enquanto não decido, adio.
(post SAPO Janeiro 20, 2019)
melhor na sombra. Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós. É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e...

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