Eu tinha 21 e não sabia quem são estas pessoas que hoje me rodeiam.
Há 4o anos eu ouvia " maldita Geni", bebia Four Roses na Gafieira - que hoje nem aparece nas pesquisas do Google quando rediges Rua da Rosa , anos 80 - , era eu só eu e não tinha mais ninguém que , anos mais tarde sairia de mim. Tinha o irmão, 9 anos mais novo que eu e que eu amava e queria perto de mim . Não tinha casa, nem sabia o que era um crédito, nunca tive um cão. Tinha os meus pais longe, a 200 kms, seguros e porto seguro onde poderia sempre voltar, quando me apetecesse. Essa rede que me dava segurança e assim permitia a loucura do 2001 em Cascais ou o Seagul em Setúbal, todas as loucuras que podiam falhar porque havia sempre para onde voltar.
Há 40 anos, podia voltar.
Hoje tenho pessoas que sairam de mim e são elas que precisam desse lugar para voltar, se o resto lhes falhar. Já não ouco Maldita Geni, tenho 2 cães e uma casa que acabou por ser aquela de onde saí, há 40 anos.
Não sei quem são todas estas pessoas que hoje me rodeiam, o trabalho que me permite sobreviver, o dia a dia onde falo com gente que nunca me conheceu.
Gente que, há 40 anos nem sequer ainda existia.
Quero voltar a mim, à minha Tita, ao Filipe e à Gafieira. Quero a minha mãe e o meu pai, o meu irmão pequeno, a certeza que serão eternos e o meu porto de abrigo sempre que eu queira voltar.
Quero ser o eu de há 40 anos.
(post SAPO Junho 21, 2025)
melhor na sombra. Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós. É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e...
Comentários