O Medo aparece em letras garrafais.
É usado para oprimir, deprimir, assustar e dominar. O Medo como arma de arremesso daqueles que, de outra forma, não alcançam controlar a narrativa.
Em letras garrafais, um néon em cada esquina, um peso que desaba sobre o peito.
Não se consegue desmentir o Medo. Ainda que o tentem, o desmentido já não vem com a mesma forma, muito menos o mesmo tamanho. O desmentido vem discreto e tímido, em letras de rodapé, ali escondido entre uma notícia de menor importância e os anúncios de venda de pílulas para dormir. Para adormecer a consciência e entorpecer a mente.
Ninguém vê o desmentido. Mesmo que seja visto, já ninguém tem tempo para perceber a que parangonas anteriores se refere. Algo mais importante sobressai. Uma nova parangona, um novo Medo. Uma urgência urgente de, novamente, sucumbir.
É melhor tomar umas pílulas para dormir.
*(texto inspirado nesta frase de Jorge Serafim, na apresentação do seu livro "À Sombra da Angústia", na Biblioteca Municipal de José Saramago, Beja. Apresentado pelo Professor Galopim de Carvalho, numa sessão com tantas outras frases que permitiriam o nascimento de tantos outros livros.)
(post SAPO Outubor 19, 2024)
Otto Dix, pintor expressionista alemão, retrata o medo em suas obras por meio da temática bélica. Na imagem: Shock Troops Advance under Gas
melhor na sombra. Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós. É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e...

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