O mês é Novembro, o penúltimo do ano.
Os dias, esses, são vários e internacionais: - Dia Europeu contra a Exploração Sexual e o Abuso Sexual de Crianças e Jovens, a 18; Dia do 35º aniversário da Convenção dos Direitos da Criança, a 20.
A 25, assinala-se o Dia Internacional de Eliminação da Violência contra as Mulheres.
São dias atrás de dias e a violência não pára, acumulam-se os rostos e os casos, os nomes e as imagens de um flagelo que não devia acontecer no Século XXI, em nenhum lugar do mundo. E acontece ao nosso lado. E agrava-se e aumenta, quando deveria cessar de vez.
Nas TVs, em prime time servido à hora do jantar, sabemos que mais uma mulher foi atacada com ácido, por um homem que não aceitou que ela é um ser autónomo e com vontade própria. O seu ex-companheiro. Ontem foi a criança que foi ouvida em Tribunal, num testemunho de gigante coragem contra o pai abusador. Amanhã será a mulher que saiu de casa com a roupa do corpo, rumo a qualquer casa-abrigo, na tentativa de proteger os filhos de um cenário anunciado. Todos os dias, todos os dias.
As entidades mobilizam-se, fazem-se cartazes e desfila-se nas ruas. Multiplicam-se as campanhas de prevenção, alertando os decisores políticos bem como toda a sociedade para os números da violência. Choram-se as vítimas, engole-se a raiva. Todos os dias.
No Relatório de avaliação da atividade anual das Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens reportou que, no ano 2023, estas entidades receberam 1262 sinalizações de suspeita de abuso sexual contra crianças ou jovens. Os estudos comprovam que, mais de 70% ocorrem no seio familiar e estima-se que este número seja apenas uma ponta do iceberg. O fenómeno é complexo e difícil de entender mas uma coisa é certa, a sociedade está gravemente doente.
De acordo com a APAV, só no 1º semestre de 2024 foram reportados mais de 15 mil casos de violência doméstica, a maioria contra mulheres e raparigas. De acordo com dados oficiais da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, 18 terminaram em mortes. Os números são frios e anónimos. Mas, nestes números, acabou a vida da Joana, da Maria, da Antónia, da Esmeralda, da Susana e de outras jovens mulheres que tinham planos e sonhos, projetos nunca cumpridos porque sucumbiram às mãos daqueles que, um dia, terão sido o amor da sua vida. Muitas, deixam filhos que nunca poderão ser adultos completos, amputados de um amor que não mais os segurará no colo.
São demasiados números, rostos novos a cada dia, gritos no calendário que clamam por mais ação, mais justiça, melhor prevenção, mas que ainda passam ao lado de tantos, imersos nas teias das suas vidas, entorpecidos e alheios ao horror destas tragédias, que vitimam muito mais que as vítimas mortais.
São cifras negras que nos envergonham e doem, é um mal que urge reparar e erradicar, a bem de um Futuro promissor e saudável.
A Escola é o terreno para cultivar novas mentalidades e destruir paradigmas. A Educação para a justiça, a igualdade, a tolerância e os afetos será o antídoto para curar o veneno e criar as novas gerações em harmonia. Sem preconceito ou fomento de desigualdades, sejam elas de género, de classe social, raça ou credo. Com os olhos postos numa sociedade desenvolvida e onde ninguém possa sequer imaginar-se como superior ou proprietário de outro alguém.
O diagnóstico está feito, as receitas estão prescritas, o tratamento é eficaz.
Resta-nos enterrar mais uma mulher e perguntar: o que falta para o colocar em prática?
(post SAPO Janeiro 01, 2025 - texto para Rádio Voz da Planície)
melhor na sombra. Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós. É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e...
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