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Carrego

no ADN um perfeccionismo assanhado, disfarçado de balda e "deixa andar". Passo tempo infinito sem limpar ou arrumar os cantos da casa mas tenho quebras de tensão se vejo uma diferença de altura entre duas toalhas acabadas de pendurar. Mata-me um chão mal assentado, um rodapé demasiado largo para o meu conceito de estética, uma parede mal estucada. Não sou capaz de viver com as imperfeições de uma obra mal feita. Tudo tem que ser milimétrico, simétrico, contínuo e lógico. Perfeito. Uma bancada de mármore não pode ter um corte a meio, ligado com silicone a outra metade. Um armário não pode nunca ficar torto, uma gaveta não deve estar perra mas sim correr suavemente e encaixar perfeitamente. Sou assim na vida, seja com naturezas mortas, tanto quanto comigo, numa ansiedade cheia de altos e baixos, que cansa. Numa autocrítica feroz, cruzada com a ilusão de "não quero saber". Nenhum trabalho que fiz ficou bom o suficiente, nenhuma palavra foi a tal, faltou sempre "só um bocadinho assim". Por muito que se corra nunca se alcança a felicidade plena, pelas falhas que teimam em perturbar uma pintura bucólica, que deveria trazer paz. Mas ali está aquela pincelada fora do lugar, para estragar o conjunto e me tirar o sono. (post SAPO Outubro 27, 2024)

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