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Biografia

Atravessei, a pulso, planuras, montanhas e vales. Descobri que as pedras se movem para te desviar do caminho, aguçadas, rasgando a pele, impulsionadas por forças ocultas que não vislumbras, testes que põem à prova a vontade de continuar. Avancei por campos de estevas e trigo, descansei na sombra das oliveiras centenárias, continuei. Fui leitora, aprendi, ensinei, escrevi, sonhei poesia, reli, assisti, representei, declamei, tentei pintar não consegui, procurei, escutei, absorvi, admirei, deslumbrei-me e não desisti. Quando os ventos se calaram e as marés recuaram pensei ter encontrado terra firme. Um pedaço de chão meu, resgatado de raízes profundas e magma em ebulição. Mas nada é - nunca - nosso. Possuímos o nosso corpo e, mesmo esse, caminha para diferentes estados de decomposição. Um olhar que se enevoa, a audição que se vai, neurónios que morrem, uma artéria obstruída, os ossos que enfraquecem. Confrontados com a nossa finitude, as estradas que trilhamos em frente apenas levam a um lugar - a vida. A vida que cada dia nos oferece um novo sol. Onde o ocaso remete para o canto das cigarras e a esperança de um outro amanhecer. A vida que tem sabor a hortelã-pimenta e algodão doce, sorvida com vagar entre colheradas de um gelado. A vida que premeia cada conquista, pequena mas simbólica, oferecida pela nossa perseverança. [há quem lhe chame teimosia...]. A vida, imprevisível, tão assustadora quanto bela. Mas tangível, naquele abraço apertado de quem nos quer bem, no sorriso de um filho, num brinde entre amigos. A Vida. A cada dia. A cada minuto. Sem prazos ou ilusões. Com esperança e utopia. Atravessei montanhas e vales, caminhos de pedras, águas revoltas, estradas de fogo ardente. Campos de lírios, lagos serenos. Avancei sempre. Até que cheguei aqui. Onde ficarei. (post SAPO Agosto 07, 2024 )

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