E passados
estes anos, continuo a sonhar contigo.
Umas vezes és tu mesmo que me apareces, inteiro, com esse doce olhar de âmbar, todo ele cante e poesia. Noutras, muitas menos, surges habitante de outros rostos, outros corpos, mas sei sempre que és tu, nesta firme certeza de quem conhece bem o caminho de casa. Em todas elas me inundo de paz, como se soubesse que assim será sempre, que ainda que ausente me estás perto, tão próximo, tão certo, tão meu.
Passados tantos anos sei que os dias em que nos tivemos foram os mais completos e verdadeiros de toda uma vida. Sei tudo isto assim, sabendo. Da mesma forma que te reconheci os traços da primeira vez que te vi, como se fizessem parte de um roteiro que trazia marcado no peito, e soube que, um dia, a nossa estrada seria a mesma. Havia sinais por todo o lado, para quem os quisesse ver, a integridade vertical dos justos, o orgulho comum pelas causas, a mesma convicção, idêntico frémito sempre que, de punho erguido, entoávamos a mesma canção. O Alentejo no sangue e no olhar. A mesma rubra linha de horizonte, por sobre as searas de espigas e paixão. A loucura consumada dos amantes, em que se esfuma o temor ao risco e a aventura inconsciente é tempero do mais poderoso combustível fóssil de sempre: o amor.
De todas as vezes em que sonho contigo, os eixos do mundo entram no seu devido lugar e, no sorriso que te recupero, está a promessa daquilo que sempre soubemos - nada nos fará seguir por rumos diferentes, voltaremos a encontrar-nos.
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