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Da memória partilhada

7 de Março de 2001

Natal, aeroporto

Acho que o que mais lhe custou foi ver-se desmascarada. Que já não acreditávamos na sua personagem de menina sonsinha, vítima da difamação. "Se tens algum assunto mal resolvido, vai tratar disso" dito de frente, olhos nos olhos deixou-a sem reacção. Não esperava. O pior é que já não era só eu a saber, outros testemunharam o seu embuste desavergonhado. A embriaguês de querer ser superior levou-a a descurar o cuidado que sempre tivera até ali. E todos estão cá para o contar. Apenas não assistiu quem devia...mas o tempo se encarregou de pôr tudo no devido lugar.
Ao sairmos da mesa e, mais tarde, noutras ocasiões em conjunto, comentávamos que não era possível tanta burrice à mistura com leviandade juntas.
Desde esse dia, nunca mais me conseguiu enganar. E muitos chás de hortelã se passaram depois, entretanto apagados, vá-se lá saber porquê.

Apesar disso, e também há quem o confirme, a minha boca não se abriu enquanto um vínculo mínimo de respeito se manteve. E ainda foram alguns anos.

Quem tem a lata de o quebrar, à conta do insulto barato, da doentia necessidade de autoafirmação com a repetição, até ao vómito, de que é boa, linda, boa, maravilhosa, inteligente, corajosa, boa, esperta, boa, tem que se aguentar à bronca.

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melhor na sombra. Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós.  É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e...

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