Tenho uma técnica muito própria de ler as revistas de que gosto. Não falo daquelas do coração, luxes e flashes e gentes e marias e afins. Falo, para o caso em apreço, da Única, a revista que, aos Sábados, acompanha o Expresso e os meus cafés duplos.
De vez em quando, por variados motivos, fica por ler durante vários dias, numa antecipação longamente saboreada, até chegar a altura em que a disponibilidade - a mental e a outra mais prosaica - me permite descalçar os sapatos, esticar-me no sofá e degustar a leitura (o cenário é igualmente aplicável a livros, a técnica não) de um menú tão diverso quanto apelativo.
Começo sempre, mas sempre, pelo fim. Parto-me a rir com as crónicas do Comendador Marques de Correia para, em seguida, dar mais ou menos atenção à Clara Ferreira Alves. Alturas há que as suas densas crónicas sobre literatura e autores estrangeiros de nomes impronunciáveis me abrem o bocejo e outras, o caso da que motivou este post e à qual voltarei não sei bem quando (mas depois aviso), que me prendem logo desde o primeiro parágrafo. Nem sempre concordo com as suas posições mas há vezes em que me surpreende pela clareza, a acutilância, o mordaz humor ou desassombro com que analisa um qualquer assunto da actualidade.
Depois, ah...depois. Passo com maior ou menor rapidez por páginas breves de texto leve e corrido, até me perder na das "Iguarias", as sugestões de produtos gourmet e, logo a seguir para não esmorecer a salivação, na rubrica "À mesa", onde José Quitério exerce como ninguém o ofício de provador dos restaurantes deste país. Óptimas sugestões, a pesquisar em futuras deslocações aos locais por ele visitados e recomendados.
A partir dali é sempre igual - um zapping rápido por mais umas páginas de receitas culinárias, ou sobre moda e ainda numa de novidades diversas, que vão desde roupa até gadjets electrónicos, passando por sugestões de presentes mais ou menos caros. Passo por cima de todos os artigos de fundo com uma primeira olhadela a títulos/temas e imagem, guardando-os para depois, numa segunda volta menos sôfrega e chego ao ponto alto: a rubrica Maria - Manel, por José Gameiro. Este "Diário de um casal" é absolutamente delicioso. Só mesmo um homem inteligente e sensível dentro de quem vive um psiquiatra brilhante, conhecedor profundo dos intrincados meandros do sucesso em Terapia Familiar, para ter este poder de decalque tão apurado das idiossincracias entre o pensamento masculino e feminino.
Finda esta etapa, respiro fundo. Há sempre tanto para digerir depois desta última leitura. Às vezes fica um sorriso, noutras o olhar distante, em déjavus da vida de um qualquer casal, tão idênticos à aventura acabada de ler.
O processo tanto pode terminar por aqui, ficando remetida a segunda volta para depois de prontas algumas tarefas inadiáveis, como prolongar-se até ao consumo final que deixa a revista prontinha para ser enfiada no contentor azul do ecoponto mais próximo.
Aqui recomeço e só aqui, enfim, com a abertura da primeira página e a recuperação dos temas mais ou menos profundos, antes deixados para trás.
Depois de tudo isto, fica aquela sensação de preenchimento que se tem após uma bela refeição. Até à semana seguinte.
Comentários
Aconselho-te vivamente a dares um passeiozito a SERPA, vai lá ver o que lá está, vai fazer-te muito bem.
Brigada amiga, por gostares das minahs maluqueiras. :-)
Também leio de tras para a frente que é como quem diz do fim para o início, e primeiro as rubricas que me interessam depois as outras.
Para o fim ficam os passatempos que por vezes esperam semanas.
E só há bem pouco tempo que me sacrifico em não ler a última pág. de um livro antes de o começar a ler pois era isso que fazia.