Avançar para o conteúdo principal
Há uma espécie de penumbra nas memórias que não queremos recordar. Elas insistem por vezes, muitas vezes, vezes demais, em tomar-nos de assalto quando menos as esperamos no despertar preguiçoso de um dia que se anuncia radioso, enquanto a espuma do duche desce pela curva suave de uma anca até ao tornozelo, no espelho escuro do café que mexemos distraidamente com a colher. Meia de acúcar, nem um miligrama a mais. Aproximam-se subreptícias, disfarçadas em pensamentos camuflados, deslocando-se em movimentos estratégicos e eis-nos a cair na emboscada ao virar de uma qualquer esquina da manhã.
Mal damos conta e estamos mergulhados até ao pescoço em vozes de outros tempos, um rosto acabado de barbear, a fragrância que nunca mais quisemos cheirar, a tepidez macia dos lençóis numa manhã de Verão. Tudo envolvido numa névoa que não temos a certeza se é confortável, se queremos dispersar de vez com um sopro. Tantas vezes, vezes demais, muitas vezes, as imagens que parece que foram ontem a aparecer-nos como se fossem hoje e outra vez amanhã e ainda depois mais uma vez. Numa espécie de filme em cinemascope, realizado pela nossa própria voz, corta! para logo em seguida de um outro lado se ouvir, acção!

Há uma espécie de clareza na História que vamos escrevendo com o coração.

Comentários

Anónimo disse…
Gostei do texto, mar, apesar de sentí-lo meio triste. Talvez porque fale do que foi . E eu quero (não) falar do que será..rsrsr

beijo , querida.

Bom fim de semana.
cereja disse…
Mas Cris é essa a beleza da memória!
E que bem a Mar falou dela.
Deve ser o dom melhor que a natureza nos ofereceu.

E, a «minha natureza» ainda me deu outro. Tenho alguma facilidade em esquecer as más recordações, e fixar bem as boas. Esses raios de luz que nos ajudam quando se está menos bem.
Bom post, Mar!
Mar disse…
Há sempre uma nostalgia no que foi Cris...
Mas, como diz a Emiéle, é uma nostalgia boa, como aquelas dores que aparecem nos músculos depois de fazermos muito exercício.. :-)

Já falar do que será, para mim, é um exercício muuuuito mais difícil, não consigo fazer planos nem antecipar o futuro. O que será, será. :-)
Mar disse…
Obrigada Emiéle, fico feliz por haver quem goste, ando meio emperrada no que toca a exercíicos de escrita...Sabes, também tenho esse dom, memória selectiva. Acabo por quase nunca me lembrar do que foi mau.
Susete Evaristo disse…
Amigas. E já alguém reparou que o que de facto existe é o passado ? Claro que sim !
Eu sei que muitos dizem não querer viver do passado, até podem querer mató-lo, para o não reviver, outros que vivendo do passado mais recuado se recusam a ver o presente. Mas a realidade é esta: o futuro virá se vier, o presente é um momento tão fugaz que basta um olhar, uma palavra, um gesto e já se foi, já é passado. Daí que, viver no passado recente aceitando e tirando ilações do passado mais lá atrás, seja mesmo saudável. É a nossa vivência, as nossas quedas mas também as nossas vitórias. Por mim, não renuncio ao meu passado e olhando para trás aprendo com as experiências que a vida me fêz viver. As recordações, essas umas são boas, outras não, mas foi com elas que fui crecendo e sendo aquilo que hoje sou.
Mar disse…
Subscrevo na íntegra susete, é nesse sentido que refiro que não sou capaz de fazer planos, nem a muito curto prazo. Nunca se sabe se lá chegamos e o melhor é ir decidindo na base do facto consumado.. ;-)
shark disse…
Gostei muito da imagem da espuma do duche a descer pela suave curva da anca.
São pequenos quês que prendem a atenção da pessoa...
:-)
Mar disse…
Claro, claro shark, eu apostaria tudo na parte do café preto mas contigo nunca se sabe...;-)
Anónimo disse…
Tu sabes que eu gosto de me armar em atrevido com esta mania tonta de que sou um brincalhão.
É claro que foi o café preto que mais me seduziu nesta prosa.
Isso e o rosto acabado de barbear.
Mar disse…
LOL!! Se fosse com o João Pedro da Costa isso da ultima frase ia dar pano pra mangas...;-)

Mensagens populares deste blogue

Escrevo

melhor na sombra. Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós.  É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e...

Esta coisa

nova eu eu descobri na minha mais recente mudança de template e que escarrapachei ali pró lado é muito útil! Eu, que apesar da minha teimosia e de aprender html à conta de muito queimar pestanas, nunca fui capaz de arranjar uma cena daquelas dos feeds ou rss's ou lá o que é e que serviria para me dizer quais os meus blogue(r)s favoritos que tinham acabado de publicar e quando. Nunca fiz a menor idéia de onde ir buscar tal coisa, se tinha que instalar software se não, se apenas teria que que aceder a um site tipo sitemeter, copiar códigos, sei lá, nunca descobri. Nem me esforcei muito, confesso. Apenas maldizia a minha sorte de cada vez que fazia mais uma ronda pelos favoritos e os descobria iguais, paraditos. Aparece agora esta funcionlidade, toda lindinha, no blogger que, diga-se em abono da verdade, tem feito algum esforço de modernização para se equiparar às outras plataformas teoricamente mais sofisticadas. E é ver, os meus favoritos todos ali ao lado, actualizados ao minuto. ...