Há uma espécie de penumbra nas memórias que não queremos recordar. Elas insistem por vezes, muitas vezes, vezes demais, em tomar-nos de assalto quando menos as esperamos no despertar preguiçoso de um dia que se anuncia radioso, enquanto a espuma do duche desce pela curva suave de uma anca até ao tornozelo, no espelho escuro do café que mexemos distraidamente com a colher. Meia de acúcar, nem um miligrama a mais. Aproximam-se subreptícias, disfarçadas em pensamentos camuflados, deslocando-se em movimentos estratégicos e eis-nos a cair na emboscada ao virar de uma qualquer esquina da manhã.
Mal damos conta e estamos mergulhados até ao pescoço em vozes de outros tempos, um rosto acabado de barbear, a fragrância que nunca mais quisemos cheirar, a tepidez macia dos lençóis numa manhã de Verão. Tudo envolvido numa névoa que não temos a certeza se é confortável, se queremos dispersar de vez com um sopro. Tantas vezes, vezes demais, muitas vezes, as imagens que parece que foram ontem a aparecer-nos como se fossem hoje e outra vez amanhã e ainda depois mais uma vez. Numa espécie de filme em cinemascope, realizado pela nossa própria voz, corta! para logo em seguida de um outro lado se ouvir, acção!
Mal damos conta e estamos mergulhados até ao pescoço em vozes de outros tempos, um rosto acabado de barbear, a fragrância que nunca mais quisemos cheirar, a tepidez macia dos lençóis numa manhã de Verão. Tudo envolvido numa névoa que não temos a certeza se é confortável, se queremos dispersar de vez com um sopro. Tantas vezes, vezes demais, muitas vezes, as imagens que parece que foram ontem a aparecer-nos como se fossem hoje e outra vez amanhã e ainda depois mais uma vez. Numa espécie de filme em cinemascope, realizado pela nossa própria voz, corta! para logo em seguida de um outro lado se ouvir, acção!
Há uma espécie de clareza na História que vamos escrevendo com o coração.
Comentários
beijo , querida.
Bom fim de semana.
E que bem a Mar falou dela.
Deve ser o dom melhor que a natureza nos ofereceu.
E, a «minha natureza» ainda me deu outro. Tenho alguma facilidade em esquecer as más recordações, e fixar bem as boas. Esses raios de luz que nos ajudam quando se está menos bem.
Bom post, Mar!
Mas, como diz a Emiéle, é uma nostalgia boa, como aquelas dores que aparecem nos músculos depois de fazermos muito exercício.. :-)
Já falar do que será, para mim, é um exercício muuuuito mais difícil, não consigo fazer planos nem antecipar o futuro. O que será, será. :-)
Eu sei que muitos dizem não querer viver do passado, até podem querer mató-lo, para o não reviver, outros que vivendo do passado mais recuado se recusam a ver o presente. Mas a realidade é esta: o futuro virá se vier, o presente é um momento tão fugaz que basta um olhar, uma palavra, um gesto e já se foi, já é passado. Daí que, viver no passado recente aceitando e tirando ilações do passado mais lá atrás, seja mesmo saudável. É a nossa vivência, as nossas quedas mas também as nossas vitórias. Por mim, não renuncio ao meu passado e olhando para trás aprendo com as experiências que a vida me fêz viver. As recordações, essas umas são boas, outras não, mas foi com elas que fui crecendo e sendo aquilo que hoje sou.
São pequenos quês que prendem a atenção da pessoa...
:-)
É claro que foi o café preto que mais me seduziu nesta prosa.
Isso e o rosto acabado de barbear.