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Há vezes

névoa de mulher
aqui

em que o peso de uma palavra pode ser tremendo.
Afirmações proferidas sem pensar, no calor de uma discussão, libelos acusatórios lançados ao ar, por entre mágoas que se gritam para que possam sair de nós e que assim fiquemos mais leves.
São palavras-arma, apontadas ao inimigo com precisão de mira telescópica, mesmo que saiam de nós no meio de uma avalanche de inconsciência. São sistemas complicados de defesa, dignos da mais avançada estratégia de guerra, montados no nosso peito, ocultos com uma rede de camuflagem em tons verde escuro e claro para que nem nós próprios os detectemos.
E eis que, ao defendermo-nos, atacamos.
Legítima defesa, poder-se-á alegar visto que algo, antes, desencadeou o nosso ataque. A necessidade de nos protegermos, de exorcizar os males que nos tomaram de assalto sem nos dar sequer tempo de reagir. Legítima defesa para os afugentar para longe, antes que nos consumam por dentro até já nada restar senão uma pele seca a cobrir um montão de ossadas inúteis.
E atacamos.
Para acabarmos por ver a sair de nós a visão de uma névoa rosada com forma humana.

Uma névoa humana a afastar-se devagar até desaparecer, fundida com o ar frio que gela a manhã.
Até já não sabermos se ficámos mais leves ou vazios.

Comentários

Anónimo disse…
Um texto muito bem conseguido. Excelente, na minha opinião.
Mar disse…
Muito obrigada pela apreciação, caro anónimo.
É apenas um texto de ficção, saído a partir da observação da vida real.
shark disse…
Concordo em absoluto com o/a anónimo/a.
Isto é Espelho Mágico no seu melhor.
Mar disse…
Brigada Shark, já viste, por acaso também pensei nisso enquanto escrevia, não consigo "despir" a pele do Espelho, mesmo que o blog tenha um nome diferente...:-)

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