Não trocava, facilmente, a vida que tenho nesta cidade por uma noutro lado qualquer.
E repare-se que substituo "por nada neste mundo", por um advérbio de modo muito mais suave, como o "facilmente" porque, para além de não me considerar fundamentalista em nenhuma matéria, claro que não desdenharia uma proposta de me mudar para uma mansão nas Ilhas Fidji ou algo do género...
Mas o que eu queria dizer é que, às vezes, acontecem coisas que nos fazem tomar consciência do felizardos que somos, apesar dos pesares.
Viver numa cidade pequena do interior tem as desvantagens óbvias, gritantes, que toda a gente conhece, em particular os que nelas vivem, em qualquer que seja a latitude do país. Toda a gente sabe quem somos, o que fazemos/não fazemos e ainda o que inventam que fazemos, não se consegue estar numa esplanada a ler o jornal sem ser interrompido um mínimo de 5 vezes e um máximo de 15, cortam-nos na casaca, pedem-nos favores, enfim, uma festa.
Mas fiquei na parte dos favores intencionalmente. É que, quando cada vez menos somos capazes de acreditar que as pessoas são boas, temos o privilégio de constatar que ainda há quem faça coisas (favores) de uma forma desinteressada e apenas por amizade.
E acredito que isto acontece mais nas cidades pequenas de interior onde as redes de inter-ajuda têm maior facilidade em se criar e manter.
Tudo isto a propósito de eu ter ganho, sem que nada tenha feito para o merecer, um "anjo da guarda" para os assuntos do bricolage doméstico, que me tem salvo a vida de gaja divorciada e que, sabendo pregar um prego, já não se abalança a coisas mais especializadas como mudar candeeiros, arranjar persianas, verificar canalizações e assim. Estou certa que, neste ponto, conto com a solidariedade de todas as gajas divorciadas que me leêm...
Ora bem, este senhor, que partilhou a infância com a minha mãe na mesma aldeia (ainda mais pequena) do interior alentejano (mocitos das mesmas idades, portanto, no intervalo entre os 65-70...), é incansável na ajuda que oferece, sem ninguém lhe pedir, para pôr em ordem as coisas cá de casa.
Acrescento já, por causa das más-línguas que, para além de reformado é também muito bem casado o que, apesar de a minha mãe ser uma senhora viúva, invalida todos os palpites de que possa existir qualquer tipo de interesse menos...conveniente, no facto.
Volta e meia pergunta se não é preciso vir cá fazer qualquer coisa, se as crianças não destruiram de novo uma das 6 persianas que existem neste lar, se não preciso de um jeito na porta do armário, enfim, faltam-me as palavras para descrever tanta disponibilidade a troco de nada.
É bom saber que, mesmo "tecnicamente" sózinhas, nestas localidades não é difícil encontrar quem se preste a este tipo de auxílio. É algo que radica em tradições muito antigas, de casas caiadas de branco, dispostas em filas baixas e compridas, parede com parede, porta a seguir a porta, uma chaveninha de arroz aqui, um raminho de coentros, vizinha, o menino já melhorou da febre?, tome lá a dúzia de ovos que me emprestou, obrigada.
É bom guardar, nestes tempos de globalização, a memória das relações de vizinhança do antigamente. Dá-nos um nadinha de esperança de poder recuperá-las, talvez, no futuro. Quando tivermos de novo de contar apenas uns com os outros, depois do caos.
Em tempos de revolução que hão-de chegar, um dia. Inevitavelmente.
E repare-se que substituo "por nada neste mundo", por um advérbio de modo muito mais suave, como o "facilmente" porque, para além de não me considerar fundamentalista em nenhuma matéria, claro que não desdenharia uma proposta de me mudar para uma mansão nas Ilhas Fidji ou algo do género...
Mas o que eu queria dizer é que, às vezes, acontecem coisas que nos fazem tomar consciência do felizardos que somos, apesar dos pesares.
Viver numa cidade pequena do interior tem as desvantagens óbvias, gritantes, que toda a gente conhece, em particular os que nelas vivem, em qualquer que seja a latitude do país. Toda a gente sabe quem somos, o que fazemos/não fazemos e ainda o que inventam que fazemos, não se consegue estar numa esplanada a ler o jornal sem ser interrompido um mínimo de 5 vezes e um máximo de 15, cortam-nos na casaca, pedem-nos favores, enfim, uma festa.
Mas fiquei na parte dos favores intencionalmente. É que, quando cada vez menos somos capazes de acreditar que as pessoas são boas, temos o privilégio de constatar que ainda há quem faça coisas (favores) de uma forma desinteressada e apenas por amizade.
E acredito que isto acontece mais nas cidades pequenas de interior onde as redes de inter-ajuda têm maior facilidade em se criar e manter.
Tudo isto a propósito de eu ter ganho, sem que nada tenha feito para o merecer, um "anjo da guarda" para os assuntos do bricolage doméstico, que me tem salvo a vida de gaja divorciada e que, sabendo pregar um prego, já não se abalança a coisas mais especializadas como mudar candeeiros, arranjar persianas, verificar canalizações e assim. Estou certa que, neste ponto, conto com a solidariedade de todas as gajas divorciadas que me leêm...
Ora bem, este senhor, que partilhou a infância com a minha mãe na mesma aldeia (ainda mais pequena) do interior alentejano (mocitos das mesmas idades, portanto, no intervalo entre os 65-70...), é incansável na ajuda que oferece, sem ninguém lhe pedir, para pôr em ordem as coisas cá de casa.
Acrescento já, por causa das más-línguas que, para além de reformado é também muito bem casado o que, apesar de a minha mãe ser uma senhora viúva, invalida todos os palpites de que possa existir qualquer tipo de interesse menos...conveniente, no facto.
Volta e meia pergunta se não é preciso vir cá fazer qualquer coisa, se as crianças não destruiram de novo uma das 6 persianas que existem neste lar, se não preciso de um jeito na porta do armário, enfim, faltam-me as palavras para descrever tanta disponibilidade a troco de nada.
É bom saber que, mesmo "tecnicamente" sózinhas, nestas localidades não é difícil encontrar quem se preste a este tipo de auxílio. É algo que radica em tradições muito antigas, de casas caiadas de branco, dispostas em filas baixas e compridas, parede com parede, porta a seguir a porta, uma chaveninha de arroz aqui, um raminho de coentros, vizinha, o menino já melhorou da febre?, tome lá a dúzia de ovos que me emprestou, obrigada.
É bom guardar, nestes tempos de globalização, a memória das relações de vizinhança do antigamente. Dá-nos um nadinha de esperança de poder recuperá-las, talvez, no futuro. Quando tivermos de novo de contar apenas uns com os outros, depois do caos.
Em tempos de revolução que hão-de chegar, um dia. Inevitavelmente.
Comentários
Revolutions, venham elas! ;-)