** É o título de um livro, "Pais que mimam demais". A adaptação é da minha autoria, explicada ao longo do post abaixo
Quando o meu filho de treze anos frequentou o ensino primário, 1º ciclo como se diz agora porque é mais chique embora a qualidade do ensino tenha decrescido na proporção inversa dos termos chiques que se têm inventado para aplicar à educação, adiante, havia na turma um rapazinho loiro, de ar frágil, quase etéreo, acentuado pelos grandes olhos azuis. Eram de um azul assim aguado, nada de cores brilhantes e com vida, parecendo olhar o mundo a medo, algures lá de dentro das profundezas daquele pequeno ser.
Comecei, aos poucos, a perceber a razão de ser daquele ar temeroso, mortiço.
Nos primeiros dias de aulas do primeiro ano, os pais apareciam durante o recreio, numa reacção normal de demonstrar aos filhos que se voltava, que eles não ficavam sózinhos, para lhes fomentar a auto-confiança e a segurança em relação àquele espaço que passara a ser o seu novo "lar".
Depois, gradualmente, a coisa foi deixando de acontecer, os putos já saltavam da escola para fora ao tocar da sirene, felizes, disputando baloiços, procurando nas lancheiras o petisco do dia, brigando ou conversando. Todos eles já sabiam que os pais regressariam à hora marcada para os levar de volta para casa.
Todos, menos um.
Aquele menino de olhos azuis, não era largado pelos pais, nem um minuto. Ambos. Durante o período da aula, inclusive!
Acho que foi assim durante todo o primeiro período. Os pais chegavam com ele, entravam na sala, permaneciam lá, à medida que o tempo passou parece-me que já era apenas um dos progenitores, alternando, saíam com ele no intervalo, sentavam-se no recreio - longe dos outros! - com ele, regressavam com ele à sala, saíam para casa no final das aulas, com ele.
Questionámos a professora da turma e, embora constrangida, disse-nos que era por isto e por aquilo, uma miríade de razões, medo da mãe de que ele se sentisse assim ou assado, sei lá, e que tinha colocado a situação à DREA e que vamos lá ver como evolui e temos que aceitar porque nos foi dito que sim. O mais estranho é que o puto nem tinha nenhum tipo de doença que o justificasse. Tratava-se mesmo de um caso patológico...dos pais. A mãe chorava de cada vez que falava no filho, moveu céu e terra e conseguiu andar por ali todo o ano. A professora foi gerindo aquilo e tentou tudo para que a criatura se apercebesse do mal que fazia ao filho. Sem sucesso.
Às tantas nós, os outros pais "normais", desligámos e já nem me lembro bem de como foi até ao 4º ano, se bem que a senhora nunca deixou de acompanhar as visitas de estudo que eram feitas e assim.
Há dias, no supermercado, deparei-me com a família um pouco à minha frente na fila para a caixa. Desde que os putos completaram o 4º ano que nunca mais tinha visto tal gente, o meu foi para outra escola e a lembrança perdeu-se.
Ao olhar em redor enquanto esperava, distraidamente, a intuição dissera-me que havia por ali qualquer coisa de errado. Gelei, quando os reconheci. Discretamente, tentei tirar conclusões.
Pai, mãe e filho, como sempre. O puto, já alto, cerca de 13 anos, vestido numa réplica perfeita de quando tinha 6 - calção curto, sandália com meia branca, T-shirt por dentro do calção com cinto e boné na cabeça. Com a pala para a frente.
Ouvi-lhe uma voz efeminada e apreciei a forma como falava com tiques femininos, sempre abraçado à mãe ou a tocar-lhe e vice-versa. O gesto da mãe a tirar-lhe o boné e ajeitar o cabelo que tinha ficado marcado. E ele inactivo, amorfo neste processo, como se o seu corpo não lhe pertencesse, continuava a contar qualquer coisa. O beijo de carinho da mãe, a seguir. O pai ligeiramente atrás. Sem intervir.
Comovi-me a pensar como irá aquele puto reagir quando um percalço do destino lhe levar aqueles pais num acidente de automóvel, um AVC, um osso de frango entalado no gasganete. Como irá - será que irá - apaixonar-se pela primeira mulher, ter a primeira relação sexual. Será que irá saber viver sózinho? Parece-me que está ali um ser humano cheio de problemas, criados por quem devia ter tido a função de o preparar para a vida. E que, ao tentar protegê-lo tanto dela, o tornou completamente indefeso e vulnerável.
Não sei se será possível ou correcto afirmarmos que há pais que amam demais. Ou então que são doentes demais. Não sou capaz de escolher entre as duas.
Quando o meu filho de treze anos frequentou o ensino primário, 1º ciclo como se diz agora porque é mais chique embora a qualidade do ensino tenha decrescido na proporção inversa dos termos chiques que se têm inventado para aplicar à educação, adiante, havia na turma um rapazinho loiro, de ar frágil, quase etéreo, acentuado pelos grandes olhos azuis. Eram de um azul assim aguado, nada de cores brilhantes e com vida, parecendo olhar o mundo a medo, algures lá de dentro das profundezas daquele pequeno ser.
Comecei, aos poucos, a perceber a razão de ser daquele ar temeroso, mortiço.
Nos primeiros dias de aulas do primeiro ano, os pais apareciam durante o recreio, numa reacção normal de demonstrar aos filhos que se voltava, que eles não ficavam sózinhos, para lhes fomentar a auto-confiança e a segurança em relação àquele espaço que passara a ser o seu novo "lar".
Depois, gradualmente, a coisa foi deixando de acontecer, os putos já saltavam da escola para fora ao tocar da sirene, felizes, disputando baloiços, procurando nas lancheiras o petisco do dia, brigando ou conversando. Todos eles já sabiam que os pais regressariam à hora marcada para os levar de volta para casa.
Todos, menos um.
Aquele menino de olhos azuis, não era largado pelos pais, nem um minuto. Ambos. Durante o período da aula, inclusive!
Acho que foi assim durante todo o primeiro período. Os pais chegavam com ele, entravam na sala, permaneciam lá, à medida que o tempo passou parece-me que já era apenas um dos progenitores, alternando, saíam com ele no intervalo, sentavam-se no recreio - longe dos outros! - com ele, regressavam com ele à sala, saíam para casa no final das aulas, com ele.
Questionámos a professora da turma e, embora constrangida, disse-nos que era por isto e por aquilo, uma miríade de razões, medo da mãe de que ele se sentisse assim ou assado, sei lá, e que tinha colocado a situação à DREA e que vamos lá ver como evolui e temos que aceitar porque nos foi dito que sim. O mais estranho é que o puto nem tinha nenhum tipo de doença que o justificasse. Tratava-se mesmo de um caso patológico...dos pais. A mãe chorava de cada vez que falava no filho, moveu céu e terra e conseguiu andar por ali todo o ano. A professora foi gerindo aquilo e tentou tudo para que a criatura se apercebesse do mal que fazia ao filho. Sem sucesso.
Às tantas nós, os outros pais "normais", desligámos e já nem me lembro bem de como foi até ao 4º ano, se bem que a senhora nunca deixou de acompanhar as visitas de estudo que eram feitas e assim.
Há dias, no supermercado, deparei-me com a família um pouco à minha frente na fila para a caixa. Desde que os putos completaram o 4º ano que nunca mais tinha visto tal gente, o meu foi para outra escola e a lembrança perdeu-se.
Ao olhar em redor enquanto esperava, distraidamente, a intuição dissera-me que havia por ali qualquer coisa de errado. Gelei, quando os reconheci. Discretamente, tentei tirar conclusões.
Pai, mãe e filho, como sempre. O puto, já alto, cerca de 13 anos, vestido numa réplica perfeita de quando tinha 6 - calção curto, sandália com meia branca, T-shirt por dentro do calção com cinto e boné na cabeça. Com a pala para a frente.
Ouvi-lhe uma voz efeminada e apreciei a forma como falava com tiques femininos, sempre abraçado à mãe ou a tocar-lhe e vice-versa. O gesto da mãe a tirar-lhe o boné e ajeitar o cabelo que tinha ficado marcado. E ele inactivo, amorfo neste processo, como se o seu corpo não lhe pertencesse, continuava a contar qualquer coisa. O beijo de carinho da mãe, a seguir. O pai ligeiramente atrás. Sem intervir.
Comovi-me a pensar como irá aquele puto reagir quando um percalço do destino lhe levar aqueles pais num acidente de automóvel, um AVC, um osso de frango entalado no gasganete. Como irá - será que irá - apaixonar-se pela primeira mulher, ter a primeira relação sexual. Será que irá saber viver sózinho? Parece-me que está ali um ser humano cheio de problemas, criados por quem devia ter tido a função de o preparar para a vida. E que, ao tentar protegê-lo tanto dela, o tornou completamente indefeso e vulnerável.
Não sei se será possível ou correcto afirmarmos que há pais que amam demais. Ou então que são doentes demais. Não sou capaz de escolher entre as duas.
Comentários
Your place or mine?
(Um gajo todo fanfarrão, convencido que a senhoria agarrava logo a deixa - aqui!aqui! - e ela - é come quiseres, méne...
Bom, por outro lado... é bom em qualquer lado, né?) :)
Deveria ser possível obrigá-los compulsivamente a receber tratamento ou assim. Afinal, se há um caso de maus-tratos ou negligência podemos denunciar às CPCJ e casos destes, não farão o mesmo mal às crianças?
Confesso que isto me incomoda.
Pobre pré-adolescente-que-não-há-de-passar-de-criança... pais desiquilibrados na sua forma de demonstrar afeição criam, necessariamente, filhos desequilibrados. Fiquei triste com a estória que contaste, sabes? Parece coisa de filme; a imaginação não nos trai e, ao "ver" pequeno-menino-já-grande, fiquei cheia de tristeza!
E depois li o comentário da emiéle... e já não sei se não haverá mais casos como este por aí ou se sou eu que não os vejo porque sou distraída!
Quando eu for mãe... que algo me ilumine para não cair em psicoses do género...
Jinhus grandes **