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Tinha recolhido pacientemente todos os pedacinhos que se haviam espalhado pela casa. Passara a pente fino os recantos mais insuspeitos com medo que algo se tivesse extraviado para sempre, que lhe faltasse uma peça fundamental para compor o que destruíra, num ataque de fúria cega. Mas não suportara vê-lo, sorridente, um braço que amparava outra que não ela, a sair daquele restaurante, e ela escondida, as lágrimas a saltar do espanto, o absurdo a apanhá-la desprevenida como um camião que a colhesse enquanto atravessava calmamente mais uma estrada.
Não soube como chegou a casa nesse dia. De repente viu-se só, no quarto que partilhavam há tantos anos, a caixa das recordações aberta diante de si, sobre a cama. A cama...e o corpo dele, quente, sobre ela como uma casa que a guardasse. Os seus olhos, em fogo, reflectindo o corpo dela. O seu riso, o suspiro cansado e ela a passar-lhe a sua mão aberta pelo rosto, nos cabelos em desalinho. A magia que tinham criado sobre aquela cama ao longo de anos, desfeita por uma imagem que a rasgou por dentro ao virar de uma esquina. Como ela rasgara aquelas fotos uma a uma. Para o tirar de dentro de si.
Depois, vazia, olhou para o que restava de uma vida e fraquejou. Tremeram-lhe os lábios, quase sufocou, quis tê-lo ali, a seu lado, feliz, como nos tempos bons. Não saberia viver sem ele. Agora, com cuidado, tentava reparar o mal. Colava com cuspo uma parte à outra e essa à seguinte, para que fizessem o mesmo sentido de antes, quando ainda eram uma folha de papel sem mácula. Era um trabalho delicado. Um olho aqui a encostar numa cana de nariz ali. Um pedaço de boca, a sorrir, cosida ao queixo firme. Os cabelos dele a tocar uma ponta do véu dela, tão juntos que haviam estado nesse dia... O cuspo não segurava com firmeza o papel brilhante mas ela persistia na sua missão, concentrada como quando o velava no seu sono de menino. Passava a língua com suavidade sobre o papel, no braço dele, pela sua mão, tal como antes a havia passado sobre o seu peito nu. Nos dias em que a mágoa ainda não existia, quando ainda não eram guerreiros num combate mortal entre si. Via-os enfim, aos dois, no retrato, mãos entrelaçadas e o sorriso de um dia feliz, entre tantos outros que haviam tido.
Suspirou fundo enquanto arrumou tudo nos lugares habituais. Depois, vestiu o seu melhor vestido, colocou flores sobre a mesa da cozinha e passou um pente nos cabelos. Num impulso, pintou os lábios de uma cor garrida e derramou nos pulsos uma gota de perfume. Não queria que ele a visse como de costume, era a mesma mas com algo de diferente, talvez uma peça nova encaixada no retrato. Que reacendesse nele a memória dessa mulher que o encantara em tempos. Apenas para o caso de ele um dia aparecer.
Sentou-se na cadeira de baloiço e esperou, enquanto as estações se sucediam e o sol amarelecia as páginas do livro que fingia ler, ouvir a chave na fechadura.
Comentários
Mas o trabalho é irrelevante, se a motivação o justificar.
(somos bons a fazer guiões de filmes ou não somos?)
(eu gosto é de ser protagonista!)
(Mas eheheh a porra. É que tu não sabes quem é a filha bastarda desse tio milionário...) :)
Mas olha que o vestido e o perfume fazem parte do tal capítulo que, ao invés de ser a meio como sugeres, vai começar mesmo ali (isto se o Shark deixasse, claro...tsc, tsc) ;-P
Até porque estou interessadíssimo nesse capítulo que vou deixar começar.
Aguardarei sereno a evolução processual da criação intelectual da qual farei parte na qualidade de testemunha (que rima com unha, uma qualquer, de uma mão. Que te estendo cheia).
De inspiração.
(e LOL, como o sharkinho para a dos erros, foi muito cómico!)
Três comentários teus de enfiada é mas é um grande privilégio e se a culpa for de estares "esbodegada" com calor, então venha ele!
Quanto à motivação para o perfume e o vestido e tal julgo que poderemos conceber que teve um bocadinho das duas, né? Ou seja, uma gaja sabe que se sente logo melhor e auto-confiante e tal assim com um trapinho novo que lhe fica a matar. E uma gaja com isto do casório, acaba por se esquecer umas tantas vezes desses detalhes - os gajos também se começam a abncar a fazer zapping com maior frequência - e vai na volta, prontes, lá se foram os jantares românticos, as conversas mornas etc...
Ora com o abanão de ver a patroa toda produzida e o respectivo atracado à dita, a gaja tem mais é que "contra-atacar", tás a ver?
E aí mata dois coelhos, sente-se melhor e o gajo vê-a melhor. Simples. :-)))
Acredito que serás uma testemunha muito inspiradora com essas mãos cheias que me jogas...veremos qual será p resultado, sai um best seller de certeza. :-)))