morreu-me há catorze anos e mais dez dias.
Precisamente.
Não vou ao cemitério há uns dois anos. Não sei bem como lidar com aquela foto dele na pedra, a inscrição que escrevi num papel nessa noite, na sala de espera do hospital, saida directamente do choque, do horror da incredulidade de dentro da alma "Viverás para sempre na memória dos que te amam". Não sei o que fazer naquela casa de gente que não é gente, talvez apenas pó no meio da terra ou nem isso, fotos antigas, flores secas. Pessoas que foram felizes, amaram, odiaram, que sorriram muito, que estiveram por aqui, ao nosso lado, onde estamos nós agora, até ver, até um dia. Até deixarmos nós de estar também.
O meu pai já morreu há tanto tempo. Passaram anos e estórias, cresceram-me os filhos, apaixonei-me e desisti, tornei a acreditar e desistir, estive no topo, vim até ao fundo, tornarei a levantar-me. Um destes dias.
Catorze anos e dez dias. E, não sabendo bem porquê, nunca o chorei como fiz no dia de hoje.
Comentários
(porque não há palavras que tapem o vazio deixado por aqueles que amamos)
Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa. Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo
de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros
porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia.
"É dentro de mim que eles estão.
(...)
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou."
Mas é tanto isto, tanto...só tu para o descobrires.
AMIGA.