Avançar para o conteúdo principal

E é no anoitecer

que lhe encontro maior beleza. Ao Sul. Nesta hora em que se apagam todos os fogos e a calma acalma. Quando as cigarras tomam a vez dos pássaros, já aninhados até o dia nascer. No lusco-fusco da planície é onde se ouvem todos os sons e se reconhecem todos os cheiros. A erva-luisa que faz um chá que dizem que cura tudo. O alecrim e o rosmaninho. A palha seca do campo. A terra acabada de regar. Ouvem-se os passos dos homens que chegam, cansados, e se acolhem no café até a noite chegar. E as conversas das mulheres, sentadas nas soleiras das portas em cadeiras baixas de buinho. Aqui ainda se vive devagar e o Largo é o centro do mundo. É onde se sabem as notícias, velozes como corcéis, matou-se o Manel, ajuntou-se a Maria, a Antónia teve um menino, benza-o Deus, onde se chega e se abala, ainda se trazem esperanças tanto quanto se levam os sonhos para longe, montados na camionete da carreira. É no Largo que o dia começa, é aqui que se recebe a noite.
E também é no Largo que se aprende a espera.
Já se vão fechando as portas no casario baixo, ouve-se ao longe um cão a uivar e as estrelas parece que descem do céu para vir dormir nos beirais. Ou talvez não, se calhar, são só as andorinhas.
Amanhã é outro dia.






Foto de Nicola Di Nunzio

Comentários

Susete Evaristo disse…
Li e reli várias vezes este teu texto.
Viajei no tempo!
Voltei atrás e revivi a rua da minha avó com a vizinhança à porta, (antes de haver televisão ou quando só alguns prelivigiados a tinham).
Erva-luisa o meu chá preferido. Havia uma moita junto à minha porta donde se colhiam as folhas mais verdes para uma ultima bebida da noite. E o cheiro da erva-cidreira e das rosinhas que pendiam em cachos da roseira por cima da porta do quintal?
Quanto à Maria, em Serpa, dizia-se mais "olha a Maria fugiu com o namorado" mesmo que os pombinhos tivesse apenas mudado de rua.
Obrigada amiga vou com certeza ter sonhos bonitos esta noite.
Mar disse…
Eu é que agradeço amiga, comentários destes que tão bem complementam aquilo que tento (d)escrever. :-)
XICA disse…
Aquilo que tu tão bem descreves, môça d´aldêa. PERFEITO! Nã me ocorre dizer mais nada, porque o sentir, esse, não consigo explicá-lo, o que tu conseguiste com este post MAR. Brigado.
Lembraste do conto do Manel da Fonseca, onde o largo era o centro do mundo, um mundo pelo qual eu tenho verdadeira PAIXÃO.
Mar disse…
Também eu Xica e daí nunca me esquecer dessa referência, tão bem que ela foi descrita pelo Manel da Fonseca.
Temos tido grandes poetas inspiradores nesta nossa terra!

Mensagens populares deste blogue

Escrevo

melhor na sombra. Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós.  É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e...

Esta coisa

nova eu eu descobri na minha mais recente mudança de template e que escarrapachei ali pró lado é muito útil! Eu, que apesar da minha teimosia e de aprender html à conta de muito queimar pestanas, nunca fui capaz de arranjar uma cena daquelas dos feeds ou rss's ou lá o que é e que serviria para me dizer quais os meus blogue(r)s favoritos que tinham acabado de publicar e quando. Nunca fiz a menor idéia de onde ir buscar tal coisa, se tinha que instalar software se não, se apenas teria que que aceder a um site tipo sitemeter, copiar códigos, sei lá, nunca descobri. Nem me esforcei muito, confesso. Apenas maldizia a minha sorte de cada vez que fazia mais uma ronda pelos favoritos e os descobria iguais, paraditos. Aparece agora esta funcionlidade, toda lindinha, no blogger que, diga-se em abono da verdade, tem feito algum esforço de modernização para se equiparar às outras plataformas teoricamente mais sofisticadas. E é ver, os meus favoritos todos ali ao lado, actualizados ao minuto. ...