Tenho lido pouca coisa nos últimos dias. O pouco que leio são textos que mais não fazem do que criticar estes ou aqueles e arengar que isto e mais o outro, não deviam, são uns malandros, o Estado é que tem que mandar nos gajos, a ver se isto acaba, uma vergonha, não querem é fazer nenhum e por aí adiante, em tomadas de posição mais ou menos certas, mais ou menos coerentes, meramente políticas todas elas.
Mais do que tomar partido(s), inflamar-me em discursos elaborados e criticar ou defender políticas e quem as personifica, este bloqueio serviu para perceber que tenho é que me defender a mim, que as dores dos gajos não são as minhas dores. Ou melhor, as dores dos gajos deviam ser as minhas, as de todos nós, as de uma Humanidade dependente de recursos finitos, mas não são. Ou, pelo menos, não parecem ser. Sim, que enquanto os tanques das reservas que alimentam a frota do Estado estiverem cheios para que o avião do Senhor Ministro possa descolar em mais uma missão "de Estado", a criseparece ser é só para os outros. Enquanto durar o champanhe e caviar nas caves do Palácio, a crise até parece que não chega ao Poder. Mais tonto é o que não quer ver...
Mais do que política esta crisedevia ser é profundamente humana. Deveria ter-nos servido para perceber a nossa infinita miséria, a ténue linha que separa a civilização da barbárie. Enquanto olho para o meu mono inútil de quatro rodas que jaz parado sem força motriz, penso no gajo que encheu dois bidons de 200 litros à minha frente, ou na senhora que passou por mim com um carro de supermercado a abarrotar de ...iogurtes. Reflicto sobre as pessoas que somos e a reacção que temos quando enfrentamos uma ameaça. A de nos salvarmos. A todo o custo. Mesmo que isso implique encher bidons de combustível como se não houvesse amanhã. Por incrível que possa parecer há sempre quem pense que enquanto dure poderá fingir que não estamos à beira que ele se esgote em definitivo.
Estes dois dias de paragem dos transportadores acabaram com asmíseras reservas nas principais cidades do país. E deram-nos um sinal claro daquilo que vai acontecer quando a crise vier para ficar. Em dois dias esgotaram-se os bens essenciais, acabaram os alimentos frescos, correram-se riscos de que incêndios ficassem por apagar, doentes por transportar, medicamentos que salvam vidas por chegar. Tivémos uma breve visão do que nos espera se não se começar a pensar a sério em energias alternativas. Dois dias serviram para constatar que o salve-se quem puder não é um mito urbano, que o ser humano depressa vira selvagem, que a agricultura de subsistência se calhar até nem era má idéia, que os bens de que dependemos para manter esta aparência de todo-poderosos são tão simples quanto uma gota de água fresca, que um dia acabará. Todas as projeccções e cenários de ficção até agora inventados, escritos e realizados em tudo quanto é obra literária ou cinematográfica, hão-de bater certo se este mundinho governado por meia dúzia de loucos não tomar consciência de que a realidade poderá vir a ser infinitamente pior. Vou trincando uma bolacha importada ao mesmo tempo que olho para as prateleiras da despensa praticamente vazias, à espera que... logo vou às compras amanhã. E vejo-me nesse amanhã que é hoje a calcorrear a pé os supermercados em busca de pacotes de leite e garrafões de água. Os mesmos que normalmente atiro para a mala do carro sem sequer pôr em causa que um dia não poderei continuar a fazê-lo. Aquilo que consideramos tão normal é, afinal, uma dádiva dessa máquina maravilhosa e assustadora que é o Homem. Aquele que detém o Poder de manter ou destruir essa normalidade civilizacional a que nos habituámos depressa demais. A diferença é simples e consiste em sobreviver ou sucumbir ao caos.
Mais do que tomar partido(s), inflamar-me em discursos elaborados e criticar ou defender políticas e quem as personifica, este bloqueio serviu para perceber que tenho é que me defender a mim, que as dores dos gajos não são as minhas dores. Ou melhor, as dores dos gajos deviam ser as minhas, as de todos nós, as de uma Humanidade dependente de recursos finitos, mas não são. Ou, pelo menos, não parecem ser. Sim, que enquanto os tanques das reservas que alimentam a frota do Estado estiverem cheios para que o avião do Senhor Ministro possa descolar em mais uma missão "de Estado", a crise
Mais do que política esta crise
Estes dois dias de paragem dos transportadores acabaram com as
É bom que o Dito comece a pensar no muito trabalho que tem pela frente para garantir a primeira opção.
Comentários
Depois tudo abala. Mais do que um abalo, quase um tremor de terra.