de silêncio e sombra no momento em que decidiu cerrar os olhos. Um subtil aroma a cedro, até então inexistente, invadiu-lhe os poros e a mente. Deixou-se ir e permaneceu sem saber por quanto tempo nessa cegueira intencional. E confortável, como o são todas as coisas reversíveis, as que mudam por efeito de algo tão simples quanto a nossa vontade. Apenas.
Soube, sem ver, que maré estava a mudar e que dos lados do Norte se levantara vento. Não viu mas sentiu que o sol se punha e que a noite já não tardava. Não foi preciso olhar para os pássaros para lhes apreender o voo desassossegado, o piar aflito no afã de procurar o ninho ou um ramo de àrvore onde pernoitar. Também não precisou de olhos para saber que todas as coisas se cobriram de negrume e que só ela e os cães permaneciam na rua, naquele prenúncio de tempestade. Ouvia as portas a bater e lá longe os gritos das mulheres enquanto corriam aos estendais e se encomendavam a Sta. Bárbara, bendita.
Estendeu os braços e continuou a caminhar em direcção ao mar. De cor, percorria o caminho de todos os dias, sabendo onde a estrada dobrava, desviando-se das covas e dos tufos de cardos, sentindo a caruma dos pinheiros estalar sob os pés à medida que avançava.
As bátegas atingiram-na mal entrou no areal, o mesmo onde costumava deitar-se de barriga para cima e olhos bem abertos. A descobrir formas nas nuvens e a namorar o sol nos intervalos que elas abriam. Soube-lhe bem o ensopar do vestido leve colado à pele, o arrepio que afastou de vez o calor abafado da trovoada. Deitou-se, desta vez de olhos fechados, enquanto a água lhe lavava o corpo e as mágoas e o ruido do mar se fazia casa em seu redor. Ficou ali assim, abandonada aos elementos, sem ponteiros de horas, nem luz, nem imagens de pessoas a correr ou tiros de canhão, sem futuro nem passado. De olhos bem fechados.
Foi só quando despontou o primeiro raio de sol que os abriu. E soube que começava ali uma nova vida.
Comentários
:-)
(Boa malha, mais uma. Vê lá se isto ainda se torna num vício.)
(Tou a ver, tou a ver...se calhar depois preciso do número de apoio aos bloguodependentes anónimos)...:-)