era apenas aquele campo de laranjeiras e tangerineiras e os afazeres se dividiam entre as correrias evitando o poço ameaçador e as subidas ao terraço por onde o Alentejo todo entrava de rompante, eu era uma criança de tranças e os dias não tinham horas.
Também não existiam ainda medos, nem sequer das aranhas peludas que faziam ninho nas frestas do salão forrado a canas que eu conhecia como se lhe tivesse desenhado o mapa, latitude e longitude, o Norte a apontar para cima e à escala da minha infância. Os paus alinhavam-se perfeitos e estavam decorados com uns dizeres que tinham sido escritos com um maçarico. Nomes e uma data. Sombras queimadas na cana, desenhadas com cuidado como se um pincel fino as tivera traçado, uma caligrafia plena de arabescos. De vez em quando havia ramos que cheiravam bem, braçadas amarradas muito juntas que se penduravam pelos cantos, eram louro ou rosas, tantas vezes alecrim.
Nunca havia frio naquela casa, que o lume era de chão e a chaminé albergava cadeiras para todos.
A espaços, dava-se a matança do porco, "a cada bacorinho vem o seu S. Martinho" que, bem aproveitado, dava para todo o ano. Apesar de não gostar da chiadeira e de me ir esconder até que o cheiro a pêlo queimado se espalhasse pelo monte, lembro-me que a azáfama me fascinava. Mulheres de roda dos alguidares de zinco, os homens em grupo, vozearia alta. Eram dias sem fim, cheios de tempo e de fartura.
Quase nada se mantém hoje, no Alentejo da minha infância.
Comentários
Às vezes penso: os nossos filhos não sabem, nem fazem ideia por muito que se lhes conte, que embora as dificuldades daqueles tempos, das brincadeiras e briquedos que tinhamos de inventar, como tinhamos coisas tão simples mas tão boas. Mas do que tenho mais saudades é do cheiro da fruta acabada de colher.
Beijinhos
Lenguiças é que não!.
As saudades da infância, quem as não têm?...
Seria melhor ou pior que a dos nossos filhos? Muitas vezes interrogo-me. Olha, era a NOSSA!
:D
É isso Emiéle, acho que todas têm os seus encantos e os nosso filhos terão certamente as suas próprias e belas recordações de ingfância (como a que revelo hoje ali mais acima) :-)
A minha mãe ao ler uma noticia num desses pedaços de papel (que vinham a embrulhar o feijão, antes da sua última serventia é claro) Leu assim: "Morreu monsenhor fulano de tal Toureiro da Catedral de Toledo" e comentou olha que coisa estranha um padre tórêro. E a mesma noticia foi lida por mim, pelo meu pai e por mais pessoas. Quando o meu tio chegou e porque ele era apoderado de um novilheiro deram-lhe o papel para ler, impossivel disse ele e leu:
"Morreu monsenhor fulano de tal tesoureiro da Catedral de toledo"
Agora imaginem a fome de leitura que havia que nem estes papéis escapavam.
Imagina nesse tempo a cor do dito!
------------
Susete, ainda bem que ao menos nisso - fome de leitura - hoje já temos mais facilidade de escolher material...:-)