"Era pela hora do meio-dia. O sol descia pelos ramos das árvores, pelos muros de pedra. No céu havia uma luz amarela, uma claridade de icterícia. E o padre a descer a ladeira que ia do convento para a vila, parecia nimbado por essa luz. Parecia irreal. E as pessoas que paravam a olhar ficavam mudas e quietas, sem saber o que pensar, mas adivinhando que dentro dele ia o conhecimento de uma dor sem remissão. Olhavam-no silenciosas, sem coragem para lhe perguntar o que quer que fosse. Com medo de ouvir a resposta. Com medo de saber a verdade que estava por detrás daquela dor. "
melhor na sombra. Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós. É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e...

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