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Aproveito a forma como a tarde se escoa devagar, tranquilamente, na preguiça do conforto que se instala quando estamos de bem com o mundo. Vejo os carros lá fora, a passar lentamente, cada um com destinos que gosto de imaginar desejados, ali vai uma família que saiu para um passeio pelo campo, logo atrás um par de namorados encantados com a descoberta um do outro e de si mesmos. Dentro de cada carro vai uma vida diferente. Mas todas têm em comum esta tarde de Sábado que se espreguiça pela planície, morna e dolente, sossegada como o são todos os dias de descanso depois de cada semana que riscamos do calendário.
Aproveito mais um dia sereno, rodeada do que me faz falta para possuir dentro de mim uma sensação de paz que é tudo o que quero.
Porque concluo que só se consegue disfrutar verdadeiramente da vida quando existem pessoas que amamos e sabemos que elas estão bem, que ainda as temos relativamente seguras, enquanto nada de inesperado e trágico nos corte o caminho a meio da viagem, enquanto, inocentes ainda, não saibamos da dor tremenda de perder alguém querido.
Na varanda ao lado da minha, em tardes de Sábado como a de hoje viveu, outrora, uma família. Dias felizes com vozes e ruídos de louça e música que saía pelas portas abertas que deixavam entrar o calor do Verão. Dezasseis Verões.

Hoje as persianas estão corridas até acima, a varanda está despida de cadeiras e tapetes e vasos de flores e a casa está vazia. Hoje esta família vive noutra casa e já não é uma família mas tão só um pai e uma mãe que já não o são. Um homem e uma mulher que sobrevivem à perda de um filho de dezasseis anos num acidente estúpido e injusto. Dois seres humanos que sobrevivem e eu não sei como, não sei como se acorda de manhã com a dor de um buraco que está no centro de nós, de um bocado que nos falta, um pedaço que nos arrancaram e que sangra sem cessar. Não sei como pode um ser humano sobreviver assim, a sangrar, a esvair-se em dor, sem futuro. Porque ninguém pode, nunca mais, pensar em futuro quando passa por algo assim. O futuro deixa de ser uma coisa certa que há-de vir, com planos e mudanças e crescimento e novidade, para se transformar em apenas mais um dia. E outro. E mais outro. Um atrás do outro sempre com a mesma dor no lugar de uma parte de nós que antes existiu.
Não sei como se reconstrói um ser humano depois disto. Com o passar do tempo, o sangue pára de correr, fica espesso, forma crosta por cima da dor. Mas ela fica lá. Em vez do futuro. E o ser humano, reconstruído com menos uma parte, já não espera nada a não ser o passar do tempo, devagar, sem reparar no cheiro da tarde, no brilho do céu, no ocaso escarlate que prenuncia a noite.

É por isso que eu quero reparar em tudo isto por todo o tempo que puder. E mais algum. Porque tenho a infinita sorte de o poder fazer, ao contrário de outros. E agradeço, a algo ou alguma coisa, seja ela qual fôr, o privilégio de ainda ser um ser humano (quase) inteiro.

Comentários

Anónimo disse…
Doi tanto que nem consigo pensar.
Mar disse…
Eu nem consigo imaginar - nem quero - esta dor assim, maria papoila.
Falta-me já um bocado, depois da morte do meu pai, mas perder um filho decerto é dor para destruir completamente um ser humano. Não quero saber nunca.
cereja disse…
Olha Mar, esta questão é esmagadora. Eu tenho 3 amigas e um amigo que perderam filhos. De várias idades e por várias formas. Dois com cancro, um acidente de carro, um suicídio. Todos continuaram a viver, creio que porque têm outros filhos e alguns agora até netos. Mas quando falam naquele que desapareceu, a expressão do rosto muda completamente. E nalguns casos já passaram muitos, muitos anos! Tenho também uma colega que perdeu o único filho que tinha. Essa, nem sei como não enlouqueceu. Dedicou-se ao trabalho de um modo alucinante, é um modo de não pensar e de se anestesiar. Eu não era especialmente amiga dela, mas tenho um enorme respeito pela forma como reagiu.
Para mim é sem a menor dúvida a maior dor do mundo. Pelo absurdo, pelo horror, porque é contra a ‘lei natural’… Fico sem palavras numa situação dessas.
Mar disse…
E é de ficar sem palavras, emiéle, arrepiam as histórias a que já assististe.
Eu, felizmente, foi apenas a esta, recentemente, filho único também.
Todos os dias penso nesta minha vizinha, a propósito de tudo e de nada.
E acho que é isso: respeito. Porque essas pessoas tornam-nos insignificantes, ao seu lado.

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