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I have two jobs

ocorre-me, de repente, saída do nada esta famosa expressão americana ouvida na boca dos heróis/heroínas dos filmes que por cá consumimos. Famosa porque vulgarizada pela existência de um sistema de emprego precário e sem vínculo que predomina nessa nação.
I have two jobs, diz ela/e no meio da trama dramática, para justificar que só assim consegue sustentar a família e tal.
E eu hoje só conseguia pensar que ao menos ele/as são pagos...
Porque eu tenho dois "jobs", sem qualquer dúvida. Depois de um dia inteiro em reunião da organização, para definir linhas estratégicas de funcionamento, verdadeiro brainstorming - para continuar na linha americanóide - desenvolvido em equipa, saio de serviço por volta das 19.00 para "pegar" ao serviço número dois, de imediato. Neste, o horário é flexível pelo que, tanto pode terminar às 22.00, como às 00.00 ou 01.00, brincando. Contempla conteúdos funcionais tão díspares e versáteis quanto servir de burro de carga com os sacos de compras escada acima até ao 2º andar, confeccionar algo comestível com o conteúdo dos ditos, pôr a máquina de roupa a lavar entretanto, meter alguém na banheira entre duas mexidelas no refogado, acorrer a uma pergunta difícil dos tpc de Geografia, passar a ferro a roupa essencial do monte acumulado num canto da cozinha, discretamente, tá claro, retirar alguém da banheira já meio engelhada, a parecer parente do E.T., colocar a comida na mesa, obrigar alguém a comer tudo o que tenha cor verde, sob coacção, ouvir as histórias do dia de dois alguéns, garantir que alguém não tem teste nos próximos dois dias, tentar arrumar as roupas e lanches para ao dia seguinte enquanto se pensa nos almoços e jantares correspondentes, ao mesmo tempo que se continua a ouvir as histórias do dia de alguém que só se cala quando se deita e mesmo assim...Do conteúdo funcional deste "job" fazem ainda parte as tarefas de dar mimos, beijos sem limite, fazer penteados novos em cabelos recém-saídos do banho, descobrir se o fato de judo já está seco, procurar o sapato (microscópico) desaparecido da anita, meter tudo na cama até às 23.00, limite máximo! e mais beijos e mimos e uma história de quando em vez (poupem-me que uma mãe também tem os seus limites).
Depois, e só depois, pode contemplar uma pausa para café.

E eles têm dois jobs...MAS AO MENOS SÃO PAGOS POR ISSO!
adenda pós-post:
...lavar a loiça, tentar colocar alguma ordem no caos de um quarto cheio de bonecas enquanto uma vozinha diz ao longe, mãe, traz-me a mochila e logo outra se lhe segue, mãe traz-me água se faxavôr, fazer um esforço hercúleo por manter os olhos abertos enquanto se lê mais um parágrafo do livro de cabeceira, e se observa pelo canto do olho como um mamarracho cheio de banhas é transformada na Miss Mundo, mediante as mais avançadas técnicas da cirurgia estética reconstrutiva.
(post em construção)

Comentários

shark disse…
Fónix, é de perder a respiração... :)
cereja disse…
Impecável!
E vá lá no meio não haver um telefonema de algum familiar idoso a pedir uma ajuda imediata, ou a ficar amuado por não se ter tempo para ele (e a afinal teria direito a isso...)
Vida de mulher é assim.
E o que me irita ainda é que a não ser que se tenha bastante dinheiro e se possa ir para um hotel, nas férias continuamos a ter um emprego, perdão um job, não pago...
shark disse…
Uma diz mata, a outra diz esfola.
E o post ainda tá em construção...
Mar disse…
Podes crer que às vezes a perco, Shark...e foi porque não quis ser muito exaustiva...;-)
Mar disse…
Como dizia ao Shark, Emiéle, eu nem quis ser muito exaustiva na descrição, senão o post tinha um metro de comprimento...é obvio que ainda poderia introduzir esse telefonema que referes ou outros que vão ocorrendo, nos entretantos daquele job a tempo inteiro que é ter família. Por isso é qu7e o post está em construção.

(ah pois é, shark...)

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