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De Beja.

Há uma diferença determinante entre os habitantes de Beja que é a diferença entre as pessoas que amam a cidade e as que vivem nela.
As segundas vivem nela, as primeiras vivem-na.
Intensa e apaixonadamente, como a viveu o Figueira Mestre, com vontade de a ver crescer, como a  um filho, dispostos a pegar na vassoura ou na pá para dar o seu contributo pessoal para o trabalho que faz falta fazer.
As primeiras são as que fazem, as segundas aquelas que falam. As que criticam a obra e o esforço, o protagonismo dos outros. As que nada fazem são as mesmas para as quais nada nunca está bem, as invejosas, as desconfiadas, as maldosas. As que não sabem amar a sua cidade são as que não conseguem vislumbrar, para além da sua mesquinhez, a grandiosidade do trabalho dos outros, o despojamento voluntarioso dos que amam. O mesmo trabalho que aqui ninguém reconhece é aquele que quem vem de fora admira e elogia, o trabalho que noutros pontos do país e do mundo serve de referência e suscita satisfação.

Foi de tudo isto que se falou hoje, foi de reflexões como esta que se fez a Homenagem ao Mestre, foi com momentos de enorme lucidez e visão - como as que ele sempre teve - que nestes dois dias se apontaram os caminhos, tão necessários para continuar a sua Obra e não deixar morrer esta cidade.
Quem lá estava ouviu e, se assim o quiser, terá aprendido e crescido ali.
O que se sente naquela casa, a Biblioteca Municipal de Beja José Saramago, é o amor pela cidade e pela cultura. É esse o legado do Mestre, talvez o mais importante. É como se, ali, estivéssemos no meio de uma ilha rodeados de um mar de pobreza cultural e intelectual que é a que caracteriza uma grande fatia dos habitantes desta cidade. Um mar parado. Uma pobreza que é tranversal a ricos e pobres, a excluidos e a supostos ocupantes de cargos e categorias importantes. Uma pobreza que só se perde quando se ama de verdade e se sabe que a cidade só cresce e se desenvolve com o nosso trabalho e dedicação colectiva.
O Mestre sabia de tudo isto e a maior falta que ele nos faz hoje é a de, todos os dias, não nos deixar esquecer, de nos segurar a cada vez que nos apetece desistir, de dar um murro na mesa e nos chamar a trabalhar esforçadamente para que, pondo no mapa esta terra que amamos, quiçá venham outros como nós, como ele. Que amem algo e sejam capazes de viver para isso.

Ao Mestre.

Comentários

XICA disse…
Brilhante texto. E parafraseando O maestro Vitorino de Almeida direi apenas " nós temos é problemas oftalmológicos, só vemos ao longe", isto a propósito da escolha e opção de Saramago por Espanha, em detrimento do nosso país.
Aqui amiga é quase o mesmo, com uma diferença, este manteve-se firme e hirto, apesar da "jumentice" aguda que grassa nesta cidade e contra tudo e todos.
Não tinha por ele uma particular simpatia, mas sei reconhecer-lhe o mérito que tinha.
Mar disse…
Eu também ouvi o Maestro, parece que o que disse veio mesmo de encontro a este texto. :-)
De Saramago guardo várias memórias, na Festa do Avante, na Cave da Biblioteca onde lhe invejei a lucidez serena e o dizer do politicamente incorrecto. Para além dos livros e do escritor admiro o Homem.

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