É de noite e todos os lugares ostentam sobre si o manto sereno do mistério. Uma mistura de névoa esbranquiçada a pintalgar partes escuras de céu, com um cinza monocromático que se apoderou dos objectos e das pessoas. Elas atravessam ruas, ao longe, todas pardas como os gatos, uniformizadas pela luz fraca dos candeeiros da rua e parecem fazer parte de uma sociedade enfim igualitária, sem diferenças, nem ricos nem pobres ou feios contra bonitos, quanto mais não seja pela falta de detalhes desta observação nocturna. Pelo menos, os que são alcançáveis a olho nu.
Vejo-os andar em passo miúdo, com pressa de chegar a algum lado ou então apenas de sair do lugar onde se encontram. Pode ser porque está um friozinho estival, as noites aqui sempre foram de arrefecer demais, mesmo que durante o dia o calor nos tenha obrigado a procurar guarida no claustro de algum convento. Talvez até no mesmo de onde a Mariana espraiou a vista até que os olhos se lhe gastassem de tanto olhar. Olhar para o Amor, por detrás da grade aos quadradinhos que a separava do mundo.
Não sei se estas pessoas-iguais sabem quem foi a Mariana, se admiram o ardor da escrita que dedicou ao seu amado ou apenas fogem do frio e se calhar de si próprias, quem o saberá. Nesta noite coberta de névoa apenas se vê que procuram qualquer coisa, chegar depressa a casa, uma loja de conveniência onde comprar um maço de cigarros, o café onde combinaram encontrar-se com a tipa da reprografia, que até é capaz de dar uma boa cambalhota. Até que passe o escuro e a névoa se dissolva em pequenas gotas sobre a grama do caminho. Até que a manhã os encontre adormecidos numa cama que não é a sua, ou no vão de uma escada, ou no leito conjugal a sentir os pés gelados da(o) consorte, desagradavelmente encostados à sua perna.
Até que deixem de ser pessoas-iguais para se transfigurarem em pedintes ou gestores, arquitectas e bancários, estudantes e professores e políticos e prostitutas e mulheres de limpeza e canalizadores. Em ricos e pobres e pedantes e humildes honestos ou então malfeitores, cada um no estrato a que pertence, a ocupar o devido lugar e facilmente identificável pela marca de roupa que veste, os colares e anéis alguns que se vão outros que ficam nos dedos, as pastas de cabedal transportadas debaixo do braço ou os alicates a sair do bolso do fato-macaco.
Não me apetece esperar pela manhã das diferenças de classe. Pelo irromper dos sorrisos falsos ou dos esgares de desprezo, dos atropelos para ver quem chega mais depressa ao topo da escada. Vou guardar esta noite de névoa para a soltar de todas as vezes em que precisar de fazer com a hipocrisia não floresça.
Fecho os estores e saboreio a paz que tenho nas mãos. O espaço que habito e onde guardo quem amo e mais as coisas que me fazem ser quem sou. Cada objecto uma parte do percurso de que me orgulho há quase 43 anos. Cada um uma peça do puzzle-história de mim. 43 anos. Serenos. Muito vividos. Maduros. Muito seguros. Cheios de conquistas.
Em paz.
Vejo-os andar em passo miúdo, com pressa de chegar a algum lado ou então apenas de sair do lugar onde se encontram. Pode ser porque está um friozinho estival, as noites aqui sempre foram de arrefecer demais, mesmo que durante o dia o calor nos tenha obrigado a procurar guarida no claustro de algum convento. Talvez até no mesmo de onde a Mariana espraiou a vista até que os olhos se lhe gastassem de tanto olhar. Olhar para o Amor, por detrás da grade aos quadradinhos que a separava do mundo.
Não sei se estas pessoas-iguais sabem quem foi a Mariana, se admiram o ardor da escrita que dedicou ao seu amado ou apenas fogem do frio e se calhar de si próprias, quem o saberá. Nesta noite coberta de névoa apenas se vê que procuram qualquer coisa, chegar depressa a casa, uma loja de conveniência onde comprar um maço de cigarros, o café onde combinaram encontrar-se com a tipa da reprografia, que até é capaz de dar uma boa cambalhota. Até que passe o escuro e a névoa se dissolva em pequenas gotas sobre a grama do caminho. Até que a manhã os encontre adormecidos numa cama que não é a sua, ou no vão de uma escada, ou no leito conjugal a sentir os pés gelados da(o) consorte, desagradavelmente encostados à sua perna.
Até que deixem de ser pessoas-iguais para se transfigurarem em pedintes ou gestores, arquitectas e bancários, estudantes e professores e políticos e prostitutas e mulheres de limpeza e canalizadores. Em ricos e pobres e pedantes e humildes honestos ou então malfeitores, cada um no estrato a que pertence, a ocupar o devido lugar e facilmente identificável pela marca de roupa que veste, os colares e anéis alguns que se vão outros que ficam nos dedos, as pastas de cabedal transportadas debaixo do braço ou os alicates a sair do bolso do fato-macaco.
Não me apetece esperar pela manhã das diferenças de classe. Pelo irromper dos sorrisos falsos ou dos esgares de desprezo, dos atropelos para ver quem chega mais depressa ao topo da escada. Vou guardar esta noite de névoa para a soltar de todas as vezes em que precisar de fazer com a hipocrisia não floresça.
Fecho os estores e saboreio a paz que tenho nas mãos. O espaço que habito e onde guardo quem amo e mais as coisas que me fazem ser quem sou. Cada objecto uma parte do percurso de que me orgulho há quase 43 anos. Cada um uma peça do puzzle-história de mim. 43 anos. Serenos. Muito vividos. Maduros. Muito seguros. Cheios de conquistas.
Em paz.
Comentários
E bastou ficares um bocado à janela?
Gosto cada vez mais da tua casa nova...
Conta muitos ò gaja!
não te queixes, eu sei que foi com força
mas eu quando gosto aperto
tchim, tchim, jovem rapariga
É por saber o quanto amo esse espaço, que também quero deixar-te os meus parabéns, mesmo sem algum dia te ter visto. Porque deves ter aquela serenidade dos horizontes só cortados pelas cores mais belas da nossa terra.
Vão atrasados, mas vão com carinho.
Mas gosto de ti e do teu blog e isso chega-me.
E gosot dessa idéia de mim à imagem da serenidade dos horizontes (embora às vezes eles expludam em fogo) :-) Beijo
Agora, no meu blogue prezo a liberdade das escolhas. As minhas e as dos meus comentadores. E espero que isso chegue.
Gosto de ti e gosto do teu blog.
E espero que isso chegue também.
Vou comentar mais, para quebrarmos o gelo.
É mais fácil do que usar um picador. ;-)