vem um sopro de Primavera, umas pontas de mãos que dedilham a pele, um aroma de flores que se desprende do sorriso, vem a paz e a redenção na forma de um pássaro selvagem que ninguém consegue prender [nem ninguém quer fazê-lo] e que, majestoso, te sobrevoa sem perder de vista, vem uma boca esquecida na curva do pescoço e um braço que prende e ampara ao mesmo tempo, vêm ruas pisadas a galope, contra o vento, que acabam em ruelas onde um restaurante antigo faz o melhor frango assado do mundo. Vem Lisboa e as colinas, miradouros e mistérios que desvendas ao virar de uma esquina, sem saberes. E vem a luz que tudo cobre de repente, uma poalha de ouro no entardecer sobre o rio, que te ilumina os olhos e os cabelos e aí sabes que chegaste ou que talvez nunca tenhas saido de casa.
melhor na sombra. Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós. É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e...
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