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De vez em quando

passo temporadas sem comprar o Expresso.
A correria da vida, o tempo que não deixa espaço para mais do que uma passagem breve pelas gordas dos jornais diários, a net como acessório indispensável para saber sempre as últimas do país e do Mundo. Um conjunto de impedimentos que não são mais do que desculpas e que usamos para justificar tudo o que na vida não tem justificação.
É quando o torno a comprar e me sento a ler de fio a pavio numa esplanada ao preguiçoso pequeno almoço de fim-de-semana que me lembro porque o fazia religiosamente, meses atrás.
E a razão é só uma: e Única.

Cada Revista Única é uma pérola - única - que apetece coleccionar como se fosse mais um tomo de uma pequena-Grande Enciclopédia. Cada uma fornece informação que não se repete - apesar de muitos dos jornais de maior tiragem já editarem também revistas ao fim-de-semana, numa imitação que fica muito aquém da original, como sempre acontece quando se trata de imitações versus material genuíno.
Cada uma "obriga-nos" à reflexão, mesmo sem querermos. Porque nos desvenda paisagens mágicas e quase sobrenaturais, em paraísos perdidos e que não estão ao alcance do comum dos mortais. Porque nos revela o lado humano de personalidades mais ou menos mediáticas e que - sendo pessoas cujo mérito nas mais variadas áreas da vida tem que advir de algum nível de inteligência/sensibilidade/lucidez/cultura/visão/humanidade/talento/andsoonandsoon (riscar o que não interesse ou ficar com todos, tipo miscelânea) superiores - as aproxima de nós, não apenas fisicamente, como foi o caso da Maria do Céu Guerra na manhã em que nos cruzámos, anónimas, numa sala de pequeno almoço de um hotel deste país mas - e mais importante, muito mais importante - espiritualmente. Porque enquanto retirávamos fatias de queijo para um prato ou procurávamos, ambas, as taças para os cereais eu não sabia que o que mais a assusta não é a sua própria morte mas sim "a morte em nós que representa a morte dos outros. É a maior morte". E hoje, lendo a Única, fiquei a sabê-lo.
Tal como, enquanto me ria a bom rir quando o Marinho Pinto desancou a Moura Guedes a valer, não imaginava que este homem que foi preso pela PIDE durante uma acção estudantil nos seus tempos de Coimbra, ainda hoje vota à esquerda e acredita que a felicidade exige sacrifício e renúncia a muitos prazeres, que "todo o prazer tem ressaca, a felicidade não, dá um bem-estar muito intenso".
É com estas e outras palavras, escritas num jornalismo irrepreensível no estilo e na forma, mais umas quantas novidades sobre marcas de bons vinhos a experimentar logo que haja oportunidade, num daqueles restaurantes à beira-mar cujo endereço por aqui descubro, talvez usando na pele um dos aromas sugeridos lá mais para as últimas páginas, onde o tema são as sensações, sabores, o glamour, boa vida, enfim, que me perco e encontro e parto para outros mundos, aqui tão pertinho do meu.

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