Vivemos depressa demais, em dias curtos e noites loucas. Ou insones, conforme o caso. Passamos pela vida assim, desta forma veloz e breve, convencidos de que a aproveitamos, que esprememos ao máximo o que tem para nos dar, por entre euforias e depressões e neuras e alegrias. Sempre a correr que não há tempo a perder.
E temos as pessoas ali à mão. Podemos passar dias e semanas sem as vermos. Podemos até pensar que tenho que telefonar, chatice ainda não foi hoje, logo ligo amanhã. E até pode passar outra vez amanhã. E depois. Porque as temos ali mesmo à mão. Se não fôr agora é mais logo, do fim-de-semana não passa e não vem daí crise ao mundo.
É assim com os amigos. Os de verdade. Só com esses nos podemos dar ao luxo de saber que nada muda, mesmo que meses se passem sem que troquemos uma palavra.
Eu sou assim com os meus amigos. Os bons. Sei-os ali à mão, se precisar, quando precisar. Eles sabem de mim o mesmo. E passam semanas sem vozes ou abraços, que não impedem que o telefonema seguinte comece como se ainda há horas nos tivéssemos separado.
Cultivamos pouco a amizade nestes loucos tempos do milénio. Sabemo-nos a todos ali à mão de um sms, uma ligação telefónica, um saltinho ao café da esquina assim que tivermos tempo de combinar. Damos como certo o dia que se segue e desaprendemos de valorizar o minuto que agora corre.
E um belo dia, o dia que se segue já não nos traz à mão aquela pessoa. Sem aviso prévio, quando disfrutamos, em todo o seu esplendor, da nossa insensata ilusão de perenidade, cai-nos em cima a evidência de que não vai haver mais nenhuma oportunidade de telefonar, comer um petisco ao fim da tarde, debater assuntos da vida em intermináveis conversas pseudo-filosóficas, apresentar com um brilho nos olhos um amor recente, pedir opinião sobre um negócio arriscado, dar opinião sobre o último capítulo de um futuro livro. Um belo dia tudo isto acaba.
E é só aí que a perda nos apanha desprevenidos ao virar da esquina. Não sei se algum dia, apesar de tudo, seremos capazes de a antecipar e lhe trocar as voltas.
* ao meu amigo Mestre, onde quer que raio esteja.
Comentários
Tudo o que venha a seguir, já é ganho! :-)
Com o que eu não concordo é com a tua resposta ao Shark, uma vez que nenhum de nós faz o que dizes! Esqueçemo-nos rapidamente de viver cada dia como "se não houvesse amanhã". Mas vale a intenção.
Um beijo muito grande ao Mestre, esteja ele onde esteja
(mas como eu acho que ele está bem perto é mesmo capaz de nos estar "a ver")
Su
E olha que a cada dia me esqueço menos de viver como se não houvesse amanhã. O tempo - esse cabrão - é que nem sempre nos deixa fazê-lo :-)