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Voltei ao meu lugar de origem

de passagem, semi-nostálgica, apenas para descobrir que deixei de saber escrever com a alma nas mãos.
Dos muitos textos que poderia aqui republicar, há alguns que são obrigatórios, que não posso deixar no oblívio de uma folha que voga incógnita na net.
E se há prioridades capazes de ser atribuidas, nesta coisa das emoções decalcadas no papel, esta é uma delas:


1.5.05
Hoje


apanhaste joaninhas que guardaste dentro de uma caixa com terra e folhas verdes e deixei-te brincar com os cães serra da estrela mesmo sabendo que és alérgica e poderias ficar com o nariz um pouco mais entupido. Mas em compensação, a tua alegria por entre correrias e festinhas e dentadas a brincar, valeu tanto a pena que não há-de ser nada que uma colher de xarope não cure. E tu até gostas dele porque sabe a chupa-chupa.
Assisto maravilhada à forma como cresces de dia para dia. A banheira a cujo bordo mal conseguias chegar - sempre foste minúscula - já não é obstáculo ao sair do banho. Observo a forma como passas a perna por cima e atinges o chão sem precisar da minha ajuda. Até me custa a acreditar que um dia te tirava ao colo lá de dentro e, embrulhada até aos pés com um enorme toalhão, brincávamos aos sacos de batatas. Mas a tua gargalhada feliz ainda é a mesma, embora agora com um espaço ao meio, onde antes estavam dentes.
Tal como é o mesmo esse cheirinho de bébé, uma mistura de bolachas de leite e algodão doce, que vou sentindo sempre que passo o nariz na tua face e nos teus cabelos tal como uma leoa faria aos seus filhotes, enquanto te ensino a limpar bem o pescoço atrás das orelhas. E lembro o dia em que te puseram em cima da minha barriga, dorida, e esse cheirinho me chegou, redentor, enquanto te beijava com suavidade todos os pedacinhos da tua pele sedosa de recém-nascido.
Hoj, falas pelos cotovelos (sairás a quem?) e estás cada vez mais autónoma, já não me cabes nas duas mãos, virada para mim em cima dos antebraços, como nesses dias. Perguntas-me como se lê "o petiz" e escreves-me em letra redonda como um rebuçado "Mãe, gosto muito de ti", num vasinho feito de barro e pedrinhas pintadas da mesma tinta com que sujaste as calças novas que te comprei.
Amo-te intensamente enquanto te olho e te vejo crescer e te sei mulher e te quero ensinar que o mundo é lindo mas tem coisas más. Queria que nunca tivesses que descobrir a dor da morte de alguém querido e evitar as tuas lágrimas quando te destroçarem o coração pela primeira vez.
Mas sei que não vou conseguir.
Passarás pela vida como uma mulher linda, terás amores e desamores, talvez filhos um dia. Apenas te posso dar o melhor de mim para que esse percurso seja feito de poucos espinhos e muitas flores. O meu papel é o de te ajudar a estares preparada para o percorrer. É uma tarefa mínima, esta, comprada com aquela que tiveste tu, há uma mão-cheia de anos para me tornares naquilo que sou hoje - tua MÃE.

Comentários

Anónimo disse…
Eu já te conhecia, Mar! Eu lembro-me de ler este texto. Diz-me: onde?
Mar disse…
www.espelhomagico.blogspot.com.
O meu local de origem, nina. :-)
Anónimo disse…
Lê no melhor sentido esta palavra: invejo-te. Também queria muito e alegro-me com o teu sentimento. O teu post é de 2005 e a tua menina deve estar crescida.

Por que caminhos ínvios nos leva esta vida, Mar? Por que caminhos me levou a minha? Porquê?
Mar disse…
Agradeço-te esse sentimento, motivado por uma vontade saudável de ser possuidora de um tesouro idêntico ao que tenho eu. Não te condeno essa "inveja". :-)

Os caminhos somos nós que os fazemos nina, eu defenderei sempre este princípio. A todo o momento podemos alterar o percurso, enveredar por uma estrada que escolhemos, até pode estar cheia de buracos mas podemos sempre voltar atrás e seguir para o lado oposto.
Nas nossas mãos. O nosso destino, nas nossas mãos e de mais ninguém. Eu acho. :-)

(está crescida, vaidosa, temperamental, teimosa, uma doçura, tudo num metro de gente)
:-))

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