conhece outra pessoa. Olha para ela, vê-a passar. A pessoa estava ali e, de repente, passa a estar mais. Uma vez, outra vez, muitas vezes. Uma pessoa pensa que já tinha visto a pessoa, num tempo qualquer, não sabe bem onde nem como ou de que maneira. E com esse pensar, esse Big Bang social, uma pessoa criou, na sua vida, a outra pessoa. A partir daí a pessoa, que existia e estava ali mas que na nossa vida ainda não tinha sido criada, passa a suscitar em nós um qualquer tipo de reacção. Boa ou má, intensa ou assim-assim. Nem sempre, não todos os dias mas, um dia aqui outro dia ali e a pessoa lá está, continua a estar e respira e ri e fala e faz coisas e nós a pensar que sim ou nós a pensar que não. Algures no processo, tropeçamos na pessoa e trocamos palavras. Emissor-receptor, palavras soltas ou pesadas, construtivas ou aparvatadas. Sorrimos ou embirramos e esquecemos ou continuamos, fabricamos uma imagem a partir dos pedaços avulso que nos são dados a conhecer. Quase nunca real, muito do que construimos traduz mais aquilo que gostarímos que a pessoa fosse do que a verdadeira essência que a compõe. Às vezes andamos lá perto, descobrimos mais tarde que afinal acertámos no encaixe de quase todas as peças, uma pincelada aqui, um polimento ali e o quadro que pintámos para nós aparece finalmente, para o bem ou para o mal, em todo o seu esplendor. Noutras (raras) falhamos redondamente e ficamos assim confusos, meio amargos, conscientes à força de que, afinal, também nos podemos enganar tanto. Outras há, ainda, em que não chegamos a ter a oportunidade de comprovar as nossas teorias. Mas a pessoa fica ali na mesma e, teimosos, deciframos-lhe nos gestos e sorrisos, nas atitudes que assume, na defesa das Causas, no afago carinhoso a uma criança, até na coincidência dum post publicado e que, pelo seu significado, estivémos nós a um milímetro de publicar anteriormente, as certezas que não pudémos alcançar de outra forma. E, às vezes, isso basta.
melhor na sombra. Em busca de um pouco de silêncio, volto a esta velha casa, tantos anos ponto de encontro de anónimos, sem amarras, sem nós. É dificil escrever sobre o medo num local onde se reúnem filhos, irmãos, amigos com rosto, uns mais outros menos, quase nenhuns verdadeiros, quase todos voyers àvidos de vidas que não sejam a sua, sobretudo se houver sangue. Sao salas ruidosas e cheias de tudo, música em loop, filmes da vida real e muita ficção, conversas cruzadas de quem só pede um pouco de atenção, imagens de mundos ao alcance de poucos, quanto mais exótico melhor. São espaços abertos, imensos, demasiado amplos, sem horizonte à vista, cheios de gente aos encontrões, como migantes perdidos em busca de um chão. Andamos por ali, uns e outros, deambulando em scroll, todos conhecidos, todos atores de um teatro que não baixa nunca o pano. E sem espaço para parar, cansados, sem sermos ouvidos, percebemos que só precisamos de um pouco de silêncio. De abrir de novo a represa e...
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