para viver com esqueletos nos armários.
Abre-se a porta e eles ali, desconjuntados, um monte indistinto de tíbias, perónios e costelas, a desarrumação total, ossos secos a chocalhar, uma pessoa tenta de novo fechar a porta, esquecer que eles existem e nada, há sempre uma falange encravada no trinco, as mandíbulas a sorrir numa fileira de dentes alinhados, aqueles olhos vazios a mirar o amanhã que nunca há-de vir, uma clavícula enfiada na manga do nosso melhor casaco, não dá. Não dá.
Esqueletos não se fizeram para viver dentro de armários de pessoa normais e vivas, ossos são para enterrar, sete palmos de terra e ao pó voltarás, admitindo-se, vá lá, que possam ser incinerados, forno crematório com eles e um momento lúdico de cinzas deitadas ao mar, lê-se um poema do Cesariny, uma música suave ouve-se no ar e bora lá de volta para casa. Em alternativa, plantam-se as cinzas num jardim debaixo de uma oliveira e pronto.
Esqueletos guardados dentro dos armários de quem ainda respira empatam a vida, obrigam a doses extra de naftalina para combater o mofo, são uma espécie de bichos de estimação de quem somos obrigados a cuidar e que temos que deixar entregues a alguém quando vamos de férias. Uma chatice, nós e os amigos empatados por aquele monte de ossos usados e sem préstimo que, em tempos, já foram cabide de alguém. Nessa altura sim, que se justificavam, esse suporte que passeava carnes morenas e vibrantes, a casa onde moravam uns olhos limpos, um sorriso claro, um regaço quente. Tempos houve em que o esqueleto foi pilar, uma estrutura inteira e sólida, mantida vertical e firme de acordo com os mais complexos cálculos de engenharia, construção anti-sísmica, o garante de uma vida inteira ainda por vir, uma promessa de dias felizes a chegar. Tempos que foram os seus, desse esqueleto e de mais nenhum, marcados no calendário com dia e hora de chegar, permanecer e depois, em paz, acabar. Nessa altura é deixá-lo ir, sorrir-lhe um obrigado por tudo o que de bom nos permitiu descobrir e aprender, abrir as mãos e ficar a vê-lo desaparecer na penumbra de um entardecer sereno.
Não adianta, nunca, guardá-lo no armário à espera que outra vez ele venha a ser capaz de disfrutar da luz de um novo dia.
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