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Eis-me aqui



Não precisei de ter lido Saramago para ser pertença do Alentejo, de alma inteira, pelo nascimento e o coração. Porque se ele dizia "não sei o que tenho em Beja" eu sei bem que este chão é o meu. Dos antepassados alentejanos fui herdar, se não a pele trigueira a verticalidade e o carácter só nestas terras temperados, no suor e nas lutas, como aço. Se na lonjura do olhar transporto a cor e a saudade do mar, em compensação ondula-me nos cabelos o doirado dos trigais, numa mistura descendente de qualquer moura encantada, guardiã das nascentes e dos poços, de um tesouro enterrado e de castelos antigos. Não sei viver com a mentira, tal como não pratico o engano. Só vivo e sinto de maneira plena e esgoto até ao limite tanto os sofrimentos e as dores quanto os sorrisos e amores. Não conheço meios-termos nem águas mornas. Aqui me tens cheia de erros e defeitos, intensa demais, tantas vezes inconveniente mas honesta, humilde, sem máscaras.
Amo a terra e as papoilas, os troncos de árvores centenárias, conheço a conversa dos grilos nas noites quentes do Verão, sei de cor as cores do céu naquele exacto minuto em que o Sol se funde com a linha mais distante que o olhar alcança. Sou companheira habitual dos solstícios e de luares grávidos que me guardam todas as esperanças e os desejos secretos que lhes confio. Não sei esquecer a traição, ainda que a possa perdoar, porque me corre nas veias, vermelho e espesso, o orgulho altivo dos pastores. E, como eles, vivo a solidão e os silêncios com a paz no olhar e a determinação no espírito. E também canto o amor e as lutas em refrões antigos, nos coros de vozes profundas e dolentes que acordam ecos nas casas, nos campos, nas ruas e muralhas.
A grandeza da paisagem é a casa que me acolhe para amar, crescer, me replicar, duplicar ou triplicar e um dia enterrar que à Terra estou devendo e só lhe pago em morrendo.
Não vergo.
E se esse dia chegar antes serei capaz de quebrar e acabar, em extremos de um sentir que me nasce teimoso como a esteva mesmo que nada faça para o cuidar.
E se atrás dizia que nem todas as lutas merecem ser travadas, hoje antes digo que, todas o merecendo,  só algumas valem o esforço. E essas são as que reclamam batalhas justas de jogo limpo que é a única forma que eu conheço de viver. Tão limpo que pode só passar por deixar de lá estar, em retirada escolhida ainda que não desejada. Tudo ou nada, é só assim que sei caminhar. Mas, se não ganho também nada perco porque tudo quanto conquistei já ninguém será capaz de me tirar. Saio de cena, não faço vénia, cai o pano.
Eis-me aqui, do lado de trás e por aqui me fico.
Sem palmas não haverá novo encore.

Comentários

Anónimo disse…
clap clap clap clap
Mar disse…
:-)
Obrigada, será preciso mais, muito mais.
Anónimo disse…
clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap.
Mar disse…
Lololololol!
Muito, muito obrigada ;-))))
shark disse…
(este texto só posso aplaudir)
Mar disse…
(e eu gosto disso Shark!)
:-)
shark disse…
Então vá:
clap clap clap clap clap clap clap!
Sou uma vasta audiência muito empolgada.
:)
Mar disse…
Ena ehehehehe, vasta e versátil LOL!!

Obrigada lindo.

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