aquele que foi o último espectáculo dos Lêndias, com a presença do seu actor/mentor.
O mesmo que aqui interpreta 3 personagens e se vai apresentando, o meu nome é...
...Luiz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco, 37 anos, escritor e também mendigo, José Mário Branco, 37 anos, músico e revolucionário e desencantado e o actor, ele próprio, António Manuel Revez, 37 anos, pai de uma filha de 12 "que sei que é feliz".
O mesmo que aqui interpreta 3 personagens e se vai apresentando, o meu nome é...
...Luiz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco, 37 anos, escritor e também mendigo, José Mário Branco, 37 anos, músico e revolucionário e desencantado e o actor, ele próprio, António Manuel Revez, 37 anos, pai de uma filha de 12 "que sei que é feliz".
Neste último espectáculo antes de partir para Havana, Cuba, o Revez supera-se enquanto actor numa performance que nos arrepia pelo que tem de realista enquanto traça o perfil e percurso de vida dos três personagens. Que nos comove quando o Zé Mário Branco chama pela mãe e desenha o retrato de um país-refém, no seu sempre actualíssimo FMI. Que nos emociona até às lágrimas quando nos pede que não sejamos cínicos, que nos vamos embora, que deixemos de fingir e, não sendo isso possível, é ele quem sai. De cena, do palco, de Beja.
Naquela que é uma das cenas mais corajosas que alguma vez um actor da nossa cidade já teve, ele, o actor, já enquanto António Revez, volta ao palco e senta-se de frente para o público e diz que nos responderá ao que quisermos saber.
Amigos, conhecidos e apenas espectacdores, todos querem saber alguma coisa: se o vinho que bebe é de verdade, porque se vai embora para Cuba? E porquê Cuba? E como? Uma fuga ou um acto de indignação e luta?
A todos ele reponde, sereno, que vai porque o Governo cubano o convidou, a ele, um actor da mesma Beja que o expulsa, que já conhece a produção artística em Cuba, que sente ainda o brilho no olhar dos que se dedicam à arte da fazer os outros sonhar. Que lá ainda acredita que é possível. Que vai porque aqui já não consegue, admitindo-se um pouco triste, muito desiludido com as opções políticas e com a inevitável dependência do teatro dos financiamentos que estas, a qualquer momento, resolvem cortar em 50%...tal como resolvem instaurar a norma de agora ceder apenas 2 garraf(inhas)as de água por artista e nenhuma para os técnicoas que fazem a montagem dos espectáculos...
A todos ele diz que assim, nestas circunstânicas, esta falta de respeito e de cultura e de visão, enquanto se mantiverem não volta a fazer teatro em Beja. E eu aplaudo-o, de pé sempre de pé, tal como o resto do público, numa ovação que significa, esta sem hipocrisias, uma palmada no ombro de "Ah, grande Revez!", ainda que me sinta mais pobre. Cada vez mais pobre.
Comentários
Vinha aqui responder a propósito deste tema que se refere a este meu post e ao teu comentário...mas depois achei que o comentário que te deixei eu, lá no funcionária publica, assentava que nem uma luva e resolvi copiá-lo aqui:
"Também eu me sinto dessa forma, amiga, colega funcionária...
Também eu desacredito a cada dia nos poderes, os vigentes, os que já vigoraram, os que querem lá chegar.
Também sinto o desalento, abomino a demagogia, e me revolto com a incoerência e os dois pesos e duas medidas.
Também eu, como tu, como tantos, quase me dou por vencida mas depois vem aquela réstea de fé na humanidade, a lembrança de pessoas boas e diferentes e faço por acreditar que ainda há esperança. Beijo."
Já não era fácil viver, agora lutamos pela sobrevivência. E há uma grande diferença.
A estratégia (ou a total ausência dela) é perfeita para que, a já de si escassa, dinâmica de Beja morra um bocadinho mais depressa.
Mas a gente continua por aqui. A chatear.
E sei do que falas quanto à luta pela sobrevivência. Às vezes desmotiva.
Mas gente que é forte não morre e os artistas têm essa extraordinária capacidade de se reinventar. E resistir, até ver. E nós estaremos cá para apoiar. ;-)