Disseram-lhe que o tempo, esse milagroso remédio de propriedades adstringentes e cicatrizantes - se calhar como a saliva dos cães ou o Betadine - tudo curava. Que esperasse, tivesse paciência, tudo se resolveria. Nada havia de ser tão mau (ou bom, acrescento eu) que durasse para sempre, que era a vida, isto e aquilo.
Disseram-lhe que tinha sido um homem bom, um amigo, companheiro, sempre honesto, consigo próprio e os que o rodearam. Um lutador. Pelas suas causas, pelos que amava, por uma vida melhor, um futuro diferente. Coerente.
Disseram-lhe tantas coisas que não as conseguiu guardar a todas, enleadas em abraços e ombros e caras e mãos, em fios de sol de um Verão tardio, nas paredes brancas da cidade que habitaram juntos e que desfilaram devagar, do lado de fora do cortejo de carros. Imenso. Tanto quanto as pessoas.
E os cartões. Tantos e que desapareceram sem deixar rasto, talvez perdidos por entre os ramos de flores que acompanhavam ou nas dobras da seda que lhe serviu de morada. A última. Cartões e palavras e nomes. Nomes de amigos e família, conhecidos, colegas, da mulher e dos filhos. E do neto. Os nomes. Para que o tempo - o remédio de propriedades tão milagrosas - não os apagasse e a memória perdurasse. E as palavras. As que lhe disseram e que disse, as de que não se lembra, que lhe escaparam dos lábios mecânicamente, as que chorou ao vento, aquelas que escreveu num papel pequeno para que deixassem de lhe martelar por dentro do cérebro, "Viverás para sempre na memória dos que te amaram". Que hoje estão gravadas na pedra branca. Para sempre. Ou talvez não.
Palavras. No lugar dos beijos e abraços e sorrisos e conversas que não mais podiam existir. Das fotografias que não seriam mais tiradas. Na rua, junto a um dois cavalos vermelho que haviam comprado juntos. Na rua com o neto, bébé, ao colo e um sorriso terno. Em casa, junto a um bolo com 2 velas e um menino que sorria. Em casa, de joelho flectido junto ao chão e braços abertos e o menino em direcção a si, com os braços também abertos, numa pose de ave pequena a levantar voo, fruto do pouco equilíbrio dos primeiros passos.
Disseram-lhe que ia doer menos. A pouco e pouco.
E, entre os seus olhos e o rosto das pessoas que tudo lhe diziam, a imagem de um singelo cravo vermelho, numa jarra pequena em cima da mesa do quarto de hospital. Para alegrar o quarto e os três homens que o ocupavam, alguém que nunca soube quem foi, havia deixado aquela flor, a que sempre o simbolizou melhor que nenhuma outra. No que foi o seu último dia. Estranha coincidência. Um sinal qualquer. Um pequeno consolo, no meio da dor e do espanto, da mágoa e da raiva e da palavra não, não, não, não, não pode ser, não. Não!
Disseram-lhe que ia doer menos. A pouco e pouco.
E, entre os seus olhos e o rosto das pessoas que tudo lhe diziam, a imagem de um singelo cravo vermelho, numa jarra pequena em cima da mesa do quarto de hospital. Para alegrar o quarto e os três homens que o ocupavam, alguém que nunca soube quem foi, havia deixado aquela flor, a que sempre o simbolizou melhor que nenhuma outra. No que foi o seu último dia. Estranha coincidência. Um sinal qualquer. Um pequeno consolo, no meio da dor e do espanto, da mágoa e da raiva e da palavra não, não, não, não, não pode ser, não. Não!
Faz amanhã 11 anos.
Comentários
Mas é o caso.
O texto é muito bonito. E as emoções também.
Um abraço amiga
E é isso, por muito que haja quem goste de escrever ou teorizar sobre estas situações. Só quem passou por elas, na pele, sabe do que falamos quando falamos de perda.