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Costumo pouco


(ou nada) escrever sobre trabalho. E não é porque faltem histórias para contar.
Mas este post da Emiéle despertou-me a vontade de falar aqui sobre uma realidade que conheço bem: a comunidade cigana.
Não serei diferente de toda a gente. E, como tal, tenho a minha quota parte de xenofobia, de "nós" e "eles" e a consequente catalogação em melhores e piores. Mais e menos, maioria e minoria, logo, bons e maus.
Os ciganos fazem parte da minha vivência desde miúda pequena, desde que, não tendo como contornar caminho na ida para a escola era obrigada a passar por grupos acampados e fazer o resto do percurso seguida por miúdos da minha idade e mais novos que me faziam perguntas e pediam coisas e provocavam um frio na barriga. Nunca me fizeram mal. Creio até que, com o passar do tempo, me habituei a contar com a sua presença e sentir-me segura porque, ao menos, naquele pedaço de caminho havia gente.
Quis o destino ou lá o que seja, que, a dada altura do meu percurso profissional, me visse de novo confrontada com a obrigação de conviver de perto com este grupo sui generis de pessoas. Mais concretamente com 50 famílias, num total de cerca de 250 elementos que viviam em barracas, em condições de insalubridade extrema. Há mais de 30 anos, gerações sucessivas nasceram e foram crescendo naquele local, perto de uma lixeira entretanto desactivada o que não implicou que fosse erradicado o lixo acumulado do lado de fora das "habitações". Note-se, do lado de fora. Porque, por dentro a maioria estava limpa e arrumada, numa estranha forma de organização dentro do caos que não é fácil de imaginar para quem nunca tenha visto. Panelas e tachos areados a brilhar, alguidares para lavar roupa e louça, mantas e colchões empilhados num canto, malas de roupa a servir de armário improvisado.
Trabalhei vários anos num projecto para retirar aquelas famílias da miséria, para lhes dar alguma dignidade que a todo o ser humano é devida.
Hoje, ocupam 50 casas das que vos mostro ali em baixo. Contra críticas e marés, oportunismo político, maledicência e muito racismo, prevaleceu a convicção de que seria possível erradicar as barracas na cidade e que, com persistência, estas famílias poderão vir a ter um nível de inclusão social que permita uma convivência mais pacífica entre ciganos e não ciganos.
É um processo duro. Feito de muita gritaria e ameaças disto e mais daquilo. De negociações difíceis e demoradas. De avanços e recuos. Nunca me tocaram num cabelo. E já tive a minha quota parte de nomes feios, de confrontos olhos nos olhos, de virar costas sem ganhar a batalha. Muitos não aceitarão nunca as minhas palavras mas gosto de acreditar que também já ganhei o respeito de outros tantos.
E, sobretudo, gosto de constatar que, graças ao meu trabalho e de mais uns quantos, hoje, o lixo deu lugar a ruas de asfalto que se podem varrer e casas caiadas com barras amarelas.

antes


o bairro das pedreiras -depois
Fotos: Zé Maria

Comentários

shark disse…
Na minha profissão também lido com ciganos e, de igual forma, tive de aprender a gerir a relação com essa comunidade desde miúdo.
São um grupo à parte e só por isso tão marginalizado (a ignorância também ajuda, em casos pontuais), pois tenho bons e maus exemplos para apontar na comunidade romani como os encontro na herrenvolk ariana que vai debitando disparates, por exemplo, na blogosfera acerca da sua visão enojada dessas pessoas com quem partilhamos um espaço comum que gerimos ao longo de séculos à sua revelia.
Não podemos esperar, tal como tu constatas no dia-a-dia, que a correcção dos erros de outrora provoque resultados instantâneos.
Mas também não será à conta das atoardas racistas e baixas de uns quantos que a parte complicada do assunto se resolverá.
Fazes bem em falar desse assunto neste espaço, para arejar um bocado as ideias daqueles a quem contrarias com um discurso moderado, porquanto realista.
Mar disse…
Geralmente, tememos o que não conhecemos. E é disso que se trata quando vemos gente com discursos inflamados/indignados/xenófobos. É sempre gente que tira as fotos cá de longe, a muitas centenas de metros, para não ser visto. Gente que nunca se deu ao trabalho de pensar um pouco, conhecer um pouco, antes de acusar e meter tudo no mesmo saco. Gente dessa, que eu também conheço bem, mete-me muito mais impressão que os ciganos. ;-)
Anónimo disse…
!!! Pois eu, tenho uma amiga de quem gosto muito(amiga de infância a quem contava todos os meus segredos) que é cigana a Elisabete Cabeças. Hoje, devido à distância Lisboa/Serpa levamos muitas vezes, meses e até anos sem nos vermos mas quando nos encontramos é uma festa. Tal como a Mar, desde muito cedo que os ciganos fazem parte da minha vivência, basta dizer que por alturas da feira na minha terra, que se realizava onde hoje fica a parte nova da cidade, os ciganos acampavam nas imediações a cerca de 50 metros da minha casa. Nos meses de Agosto que tantas recordações me trazem e que ainda hoje me fazem sorrir, conviviamos sem um único problema, antes pelo contrário, o respeito que demonstravam pelos meus pais faziam com que houvesse uma amizade e uma alegria que, feira sem ciganos não era feira. Se vos contasse certos episódios que aconteceram perceberiam melhor. Desde a venda de melancias a um tostão até à disponibilidade de um tanque com água para os burros beberem, a casamentos, isto é, bodas realizadas antes do casamento oficial prepositadamente, como o da cigana Manila, para que estivessemos presentes, que se prolongavam por 8 dias com bailes abrilhantados pelas orquestras do circo e onde nós, eu e minha irmã iamos, dançar comer e beber, confraternizar, sem o menor problema. Enfim o tempo dos meus 15, 16 anos que recordo com carinho. Os ciganos são pessoas como nós, com os mesmos defeitos e virtudes, um modo de vida talvez diferente mas, os mesmos sonhos, alegrias e tristezas.
Mar disse…
Que comentário bonito, espantação! É um orgulho ter comentadores deste calibre. Obrigada pelo teu testenmunho. Um verdadeiro exemplo do realismo de que falava o Shark, do apelo à tentativa de igualdade de oportunidades, tão alardeada nestes tempos modernos. ;-)

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